Que Black Mirror é uma das melhores coisas que surgiram na TV nos últimos tempos, não há como negar. Tão aguardada e já dona de um público ansioso por novas tramas, a quarta temporada da série aportou na Netflix na última sexta-feira de 2017.

O hype estava nas alturas, como tinha de ser, mas talvez estivesse tão alto, que a expectativa fosse impossível de ser correspondida. E infelizmente afirmo que não foi.

Black Mirror fala sobre como a tecnologia não está 100% à prova do animal mais perigoso de todos: nós mesmos. Como produtos eletrônicos, feitos para evolução, em contato com a mente humana, podem se tornar fardos pesados demais para a sociedade; resultando em armas altamente perigosas. Bebendo da fonte das temporadas anteriores, temos novamente seis episódios independentes (o número reduzido de episódios ajuda uma assimilação maior de cada curta-metragem, sendo o maior USS Callister -1h16min- e o menor Metalhead, com 40 minutos).

É importante ressaltar que a 4ª temporada possui mulheres em papeis de destaque, protagonizando a maior parte dos episódios (levando em conta que o protagonista de Hang The DJ é o homem, e em Black Museum e USS Callister homens são os motivadores das tramas, tendo tanto tempo e importância quanto as mulheres), e nos restantes possuem igual importância aos homens. Representatividade importa e, sem dúvidas, é um atrativo.

A  4ª temporada, como as demais, tem altos e baixos, mas dessa vez os “baixos” infelizmente se apresentaram em maior quantidade, reciclando até algumas ideias de episódios melhores. Esta talvez seja a temporada mais fraca da série, mas o que de forma alguma, diminui o tamanho da importância que o seriado tem. E que venha a quinta temporada!

A PARTIR DAQUI O TEXTO CONTÉM SPOILERS

USS Callister

(Temporada 4, ep. 1. Direção: Toby Haynes; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “O capitão Daly comanda sua nave espacial com coragem e sabedoria. Mas uma nova recruta está prestes a descobrir que as coisas não são exatamente o que parecem” 

Uma homenagem de Black Mirror à cultuadíssima Star Trek. O primeiro episódio da 4ª temporada chega com o pé na porta, focando no ramo da gameficação (também explorado em Playtest (episódio 2, temporada 3), onde um ambiente virtual, lhe possibilita ter maior controle e participação na criação e desenvolvimento daquela mídia.

Essa é a trama que envolve esse episódio. Um engenheiro de segurança, cansado da desvalorização que sofre no ambiente profissional, cria Infinity, um jogo multi-player online que simula um universo semelhante ao de Star Trek. Desanimado com a vida que leva, Daly cria, secretamente, em sua casa, uma versão própria e modificada do jogo, mantendo uma estética totalmente baseada na série televisiva. O protagonista, conquista o público nos primeiros momentos, despertando piedade quando é rejeitado e diminuído por colegas de trabalho. Porém, ao assumir o papel de um líder tirano e irredutível dentro do “jogo”, a situação muda de figura. Em sua nave, há clones idênticos de pessoas de sua vida off-line. O que já seria estranho, mas O problema é que estas cópias possuem a consciência e a memória de suas versões vivas.

USS Callister é, sem dúvida, é um dos episódios que melhor sintetizam o verdadeiro conteúdo da série até hoje. Mais uma vez, a trazendo a tecnologia futurista, não muito longe da atualidade, afinal, jogos online são uma tendência, e a utiliza de maneira eficaz: ela é apenas um meio para que a série discuta outro tema. O episódio claramente demonstra interesse em fazer de sua narrativa uma alegoria para como a rede, muitas vezes, surge como uma máscara, que permite os covardes e cruéis revelarem seu verdadeiro caráter, além de abordar outros assuntos como abuso de poder, vícios e utopia. Zonas cinzentas da vida, bem retratadas no roteiro de William Bridges e Charlie Brooker. Não é somente Robert Daly que mostra sua verdadeira cara diante da tela de um computador, pode acreditar.

 

Arkangel

(Temporada 4, ep. 2. Direção: Jodie Foster; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “Preocupada com a segurança da filha, Marie recorre a um dispositivo de última geração para monitorar sua localização – e muitas outras coisas.” 

A emblemática atriz de O Silêncio dos Inocentes, Jodie Foster é quem conduz a trama do segundo episódio da temporada, Arkangel. Sem reviravoltas inesperadas e plot twists, o capítulo aborda uma mãe que preocupada com sua filha após alguns incidentes fora de seu controle, decide buscar um serviço de controle parental, onde um pequeno implante permanente dá à mãe a opção de monitorar sua filha. Esse monitoramento ocorre através de um tablet, onde há informações sobre a condição dos sinais vitais, localização via GPS e observação em tempo real do que ela está vendo. A visão da criança pode ser até obstruída por filtros, caso a cena seja chocante, de acordo com a mãe.

 

Sara, a cobaia do projeto Arkangel, cresce em um mundo controlado. Seus pensamentos, olhares e atitudes são sempre guiados ou censurados por sua mãe. O episódio, então, aborda os mais variados efeitos de uma criação autoritária e controladora, não muito diferente da que ocorre em boa parte das relações familiares na sociedade atual.

O roteiro de Charlie Brooker toma bastante cuidado ao desenvolver o psicológico das duas personagens principais – por exemplo, a obsessão de Sarah por coisas bizarras, já que ficou tanto tempo sem conseguir vê-las. Porém acaba pecando na previsibilidade e contém alguns furos estranhos, nada demais.

Arkangel é um episódio ‘ok’. O que não é algo totalmente ruim. Mas Black Mirror ficou conhecido por explorar relações humanas em situações criativas e aterrorizantes. E o potencial de tais limites não é totalmente explorado aqui. Talvez o que realmente tenha feito a diferença foi a direção competente de Jodie Foster – que sempre gostou de tramas familiares. Seu trabalho consegue manter a atenção do espectador ao construir uma narrativa envolvente, misturando suspense e emoção, sem alongar determinados arcos de forma desnecessária. O esforço poderia render um desfecho mais interessante, resultando apenas numa picuinha novelesca de mães sufocadoras e suas filhas subjugadas.

 

Crocodilo (Crocodile)

(Temporada 4, ep. 3. Direção: John Hillcoat; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “Em um mundo onde memórias alheias podem ser acessadas, uma arquiteta luta para guardar um terrível segredo e uma investigadora de seguros apura um acidente.”

Um acidente na estrada. Mia e Rob, um casal de jovens entorpecidos atropelam fatalmente um ciclista. Ambos são forçando a esquecer toda a história. No futuro, um evento faz com todo esse passado volte a assombrá-los, principalmente a mulher, protagonista da trama. Paralelamente às vidas de Mia e Rob, Shazza, uma funcionária de uma agência de seguros, investiga um acidente entrevistando as pessoas que o testemunharam. Ela utiliza uma máquina que projeta em tela as memórias das pessoas, o que a leva a interrogar Mia, que estava presente no local do acidente. Uma pequena leitura compromete Mia, fazendo-a tomar atitudes que não gostaria. Quando as histórias finalmente se encontram, o suspense atinge um clímax eficaz graças à montagem impecável e ao bom uso de trilha sonora.

Crocodilo discute mais sobre os pontos éticos e morais do que propriamente tecnológicos. É claro que, com o avanço da tecnologia, a moralidade é também um assunto que vem em uma crescente. É praticamente um estudo do peso que as memórias dos personagens tem sobre os mesmos. Memórias essas que entrepassam qualquer pensamento sadio da personagem.  Vemos, por exemplo, quando ela é entrevistada por Shazza, que sua tentativa de ocultar as memórias de seu último crime são totalmente fracassadas: as imagens da morte de Rob preenchem a tela em segundos, pois suas lembranças são mais fortes que ela.

O modo como o episódio é encerrado é brilhante. Ao fim da projeção, pouco importa se a polícia vai ou não prender Mia (e vai, mesmo que não tenha sido mostrado). A verdadeira prisão na qual a personagem está é a sua mente, levada por seu próprio julgamento. Tentando limpar seu passado, Mia acabou transformando-se no monstro que via em Rob. A culpa a consome, e, inocentada ou não, ela sabe que seu passado a assombrará.

Crocodilo ainda tem a função de amarrar algumas teorias antigas dos fãs da série. A ideia de que todos os episódios se passam em um mesmo universo é antiga, e aqui deixa de ser simples referência e torna-se realidade. No especial de natal, vemos o programa de calouros Hot Shot (vindo do episódio das bicicletas, 15 Milhões de Méritos Ep. 2 T.1) passando de relance em uma televisão. Além de um funcionário do hotel onde Mia esteve hospedada dizer que por lá passou um dos jurados do programa Hot Shot.

Esta amarração é interessante por nos possibilitar imaginar diversos desdobramentos para o episódio. Poderia Mia, por seus crimes, terminar presa em um sistema carcerário semelhante a White Bear? Outra dúvida que fica é: onde se localiza a cidade dos ciclistas do episódio 15 Milhões de Méritos? Seria uma tecnologia para o terceiro mundo e escravização de povos pobres? A possibilidade de vermos Mia novamente em uma futura temporada não deixa de ser interessante, e poderia abrir espaço para um novo formato para a série.

 

Hang The DJ

(Temporada 4, ep. 4. Direção: Tim Van Patten; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “Este aplicativo não só forma casais como prevê a data de validade da relação. Unidos pelo sistema, Frank e Amy decidem questionar sua lógica.”

Senhoras e senhores temos o San Junipero da temporada. O nome do episódio é uma referência à música Panic, do The Smiths. Em tradução livre, representa uma vontade de mandar o DJ/rádio/banda parar de tocar quando é uma canção “não muito simpática”.

Hang the DJ, ao contrário da maioria aqui, fala sobre relacionamentos amorosos em meio a esse mundo moderno, apesar de não parecer muito Black Mirror, essa premissa sempre precisa fazer parte do universo da série porque é muito de seu cerne também. A ideia do futuro distópico, apoiada no uso exagerado da tecnologia está lá. Mas de uma forma positiva, até e incrivelmente mais próxima do nosso cotidiano do que possa parecer à primeira vista.

Este é o único episódio com essa temática na nova temporada. Na trama, o mundo é ditado por um aplicativo de relacionamentos amorosos que indica seu parceiro, tipo Tinder e te diz exatamente quanto tempo a relação terá e se você quiser continuar com a pessoa após o término do tempo, não pode! (Isso sim, é muito Black Mirror).

Um desses “matchs” une Amy e Frank, jovens que se conhecem pelo sistema e, apesar do curto encontro de apenas 12 horas, sentem que havia ali uma possibilidade de um relacionamento mais duradouro. É claro que os protagonistas não irão aceitar as imposições deste novo mundo e se rebelar.

E é aí que o capítulo abre margem para várias discussões a respeito do livre arbítrio e de como a tecnologia controla a nossa forma de se relacionar com o outro. Tenta ainda falar sobre o amor verdadeiro e desprendido de convenções sociais em uma época onde, mais importante do que estar feliz, é ser socialmente aceito. É, acima de tudo, uma obra que faz seus personagens experimentarem os mais frios encontros para aprenderem que o que importa para eles não é o que um aplicativo diz, e sim o que eles sentem.

Hang the DJ encanta por ser o episódio mais bonitinho e romântico do novo lote.  O episódio entretém e consegue manter o interesse, revelando exatamente o teor que todos queremos e estamos acostumados a ver em Black Mirror.

 

Metalhead

(Temporada 4, ep. 5. Direção: David Slade; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “À procura de suprimentos em uma terra devastada, eles encontram um inimigo implacável. Agora, fugir é a única saída.”

Que me perdoem os que discordam, mas esse foi meu episódio preferido na temporada, tenho que admitir que Black Museum fica bem próximo, mas Metalhead me impactou muito.

Um cenário pós apocalíptico. Dois homens e uma mulher estão em busca de algo. Existem máquinas assassinas dispostas a nos exterminar. Isso é basicamente tudo o que precisa ser dito para entender esse episódio. Após serem capturados, os dois homens são mortos e a mulher perseguida por uma espécie de cachorro de metal tecnológico (metalhead é cabeça de metal em tradução livre), altamente perigoso com um único intuito: matar quem for detectado. Nomes de empresas ou quem controla essas máquinas não são divulgados, o que permite à história focar em um gênero de perseguição, onde a mulher tenta fugir do animal mecânico. Ele é alimentado por sistemas de detecção de DNA, sons através de um radar, além de disparar dispositivos de rastreamento.

Isso é o suficiente para este episódio todo criado em preto e branco, e dirigido por David Slade arrepiar todos os fios do corpo. É tenso, muito nervoso e promete te deixar na beira da poltrona esperando a próxima cena. Metalhead mostra também que se bem trabalhado, episódios com premissas simples podem funcionar bem dentro de tal universo.

Este é o episódio com a trama mais simples e direta de toda a temporada. O que tem se mostrado uma tendência. Metalhead satisfaz por seu é teor cult, que soa saído diretamente de um curta dos anos 80. É o filme de terror desta temporada. Com um final surpreendente, é o melhor episódio da temporada para esta que vos escreve.

 

 

Black Museum

(Temporada 4, ep. 4. Direção: Colm McCarthy; roteiro: Charlie Brooker)

Sinopse: “Numa estrada deserta, uma viajante se depara com um museu. Na coleção, objetos raros do mundo do crime – e uma chocante atração principal.”     

 

O último episódio e mais misterioso é na verdade uma grande homenagem á própria série. É como se o criador Charlie Brooker decidisse criar seu primeiro crossover dentro do universo de Black Mirror, trazendo num único episódio, em um museu, todos os artefatos tecnológicos apresentados até aqui, em episódios de todas as temporadas. Para quem ama uma boa referência, como eu, é um prato cheio.

Black Museum funciona como três dentro de um. Aqui, além da trama principal do museu, temos dentro dela, duas outras que apresentam verdadeiramente os itens encontrados no local. A primeira conta sobre um médico cuja tecnologia o faz sentir os sintomas das vítimas, conseguindo evitar muitas mortes. O sujeito, no entanto, termina viciado em dor, como efeito colateral, e a coisa não acaba nada bem. O segundo mostra uma mulher em coma tendo a consciência transferida para dentro da mente de seu companheiro. Uma ideia nada convidativa também. Mas o desfecho deixa a desejar com uma história de vingança.

Essa segunda história, sobre o casal Jack e Carrie e a consciência transplantada, soa particularmente interessante, sobretudo levando em conta o final do episódio, quando descobrimos que Nish, a protagonista carrega a consciência da própria mãe, sem aparentes problemas, sendo este o exato motivo por que buscou vingança e obteve êxito.

Black Museum acaba sendo o episódio ideal para o encerramento da temporada não apenas porque remete tanto a episódios anteriores, mas porque faz isso através da justaposição que sempre foi o tema principal de Black Mirror, entre os perigos da tecnologia e os perigos que a raça humana representa por si só.

 

 

A 4ª temporada de Black Mirror, em vista de suas anteriores, deixa sim um pouco a desejar, seus próprios fãs reconhecem. É uma temporada que, mais do que qualquer outra, trata a tecnologia apenas como um elemento complementar, e não como o foco da série. Em geral, a qualidade da série se mantém, méritos vindos de seu criador. Mas fica minha torcida para que tenhamos mais capítulos como Shut Up and Dance, Queda Livre e Hino Nacional no próximo ano de Black Mirror.

 

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