Bem vindos de volta, Nerds! Dando continuidade à nossa viajem ao mundo de Black Mirror, hoje faremos o review dos episódios da segunda temporada da série.

Lançado em 2013, o segundo ano de Black Mirror segue a mesma linha da temporada anterior. Com episódios independentes, personagens, cenários e arcos fechados, a série retorna fiel em seu intuito de abordar a sociedade moderna, em especial, as consequências das novas tecnologias na vida das pessoas em diferentes realidades.

A PARTIR DAQUI O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Volto já (Be Right Back)

(Temporada 2, ep. 1. Direção: Owen Harris; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “Martha tem um marido que parece estar mais presente na internet do que na vida real. Quando um trágico acidente muda suas vidas, ela reencontra seu esposo através de seu arquivo online.”

Sem dúvida, um dos melhores episódios da série. Perturbador, acompanhamos a história de Martha (Hayley Atwell) e Ash (Domhnall Gleeson), um casal comum, que leva uma vida pacata e feliz numa área rural. Ela vive a se queixar da intensa atividade do companheiro nas redes sociais, até que Ash sofre um acidente fatal e Martha passa a usar um software para “ajudar a superar a saudade”.

A princípio, ela resiste à ideia, mas acaba aderindo. Passa a conversar com o marido por e-mail e depois por voz. Não é espiritismo, é tecnologia: tudo aquilo que ele postou na internet em vida é processado de forma a compor esse interlocutor. Ash ganha uma existência póstuma. É um ser abstrato, porém crível; fruto da máquina, mas personalizado. Mais adiante, essa figura ganhará um corpo e se tornará concreta. Ele nunca será Ash, mas tem muito dele. E é composto de tudo o que o personagem depositou na internet enquanto esteve vivo.

Be Right Back tem um enredo magistralmente bem desenvolvido, e ainda conta com uma mensagem sobre a tecnologia, como é de praste para a série, dessa vez em seu desesperado avanço tentando cobrir o luto das pessoas, e gerando lucro com isso. Uma história de ficção científica pura muito bem contada, mas também muito sentimento. O episódio mostra tanto o lado otimista quanto o pessimista de um futuro, que pode ser amanhã. Impossível não gostar.

 

White Bear

(Temporada 2, ep. 2. Direção: Carl Tibbetts; roteiro: Charlie Brooker)

 

Sinopse: “Victoria acorda sem se lembrar de nada do dia anterior. Todos a sua volta se recusam a falar com ela, mas fazem questão de registrar cada passo seu.”

Para alguns um dos melhores episódios da série, para outros não é tudo isso, para mim, um episódio ok, mas abaixo da média. O capítulo começa quando uma mulher acorda sem se lembrar quem é. Não sabe onde está nem por que tanta gente está gravando com os celulares. Não sabe por que essas pessoas disfarçadas a perseguem. O que sabe é que terá de ir a White Bear, supostamente um local seguro. No fim, como costuma acontecer nos capítulos de Black Mirror, as coisas não são o que parecem, e uma virada obriga a repensar toda a história.

A trama de White Bear é um tanto forçada e, apesar do episódio caprichar no suspense, termina por ser o segmento que mais destoa de todo o contexto da série. Os maus usos da tecnologia são tratados aqui com um certo exagero alegórico, onde o tom barulhento e a protagonista, que em determinado momento só grita, acaba tornando-se extremamente cansativo.

Em tempos de reality shows cada vez mais numerosos e insuportáveis transbordando em nossas televisões todos os dias, White Bear é uma interessante ferramenta de crítica a este conceito cada vez mais esgotado. A mensagem poderia ter apenas sido entregue com um pouco mais de sutileza e sobriedade.

 

Momento Waldo (The Waldo Moment)

(Temporada 2, ep. 3. Direção: Bryan Higgins; roteiro: Charlie Brooker e Chris Morris)

 

Sinopse: “Um comediante fracassado reencontra o sucesso ao dublar um urso animado. Mas quando seu personagem entra para o campo político, sua vida segue outro rumo.”

Jamie Salter (Daniel Rigby), um comediante fracassado e deprimido, vê sua sorte mudar ao dar vida, através da tecnologia de captura de movimentos, a um urso azul chamado Waldo, que faz parte de um programa de comédia a la Saturday Night Live. Tudo muda na vida de Jamie quando ele e Waldo têm a oportunidade de entrevistar o candidato político Liam Monroe (Tobias Menzies). Com seu humor ácido e até mesmo agressivo, Waldo se torna sensação do dia para noite, claro que com a ajuda do Youtube.

O sucesso é tanto que rapidamente os produtores e a emissora decidem fazer um programa somente com Waldo. O que começa como uma perseguição “humorística” ao candidato Monroe, logo se torna em em uma possível candidatura política de um personagem feito através de computação gráfica. A princípio pode parecer loucura, mas então paramos para pensar por exemplo, que o Tiririca foi realmente eleito e assim nada mais parece absurdo e por tabela deixa bem claro o objetivo de Charlie Brooker com esse episódio.

Quando o feitiço vira contra o feiticeiro e Jamie é atacado publicamente e pessoalmente, ele enlouquece e fala sobre o que realmente tornou-se a essência da política hoje em dia. Menção para a frase de Waldo, que sozinha já diz tudo: “Sou um personagem de computação gráfica, mas mesmo assim sou mais humano que todos vocês juntos”. Essa revolta de Jamie só acrescenta na popularidade de Waldo, e essa é a população que novamente mostra a real dimensão de seu conhecimento sócio cultural.

 

E assim novamente um episódio de Black Mirror faz uma crítica inteligente sobre essa nossa época em que o humor deixou de ser inteligente para se tornar altamente agressivo, a população que ficou preguiçosa para o simples ato de pensar e como a política não passa de um circo que falha na tentativa de entreter a população.

Momento Waldo, como episódio, no entanto, é pouco memorável. Sua ideia principal não se desenvolve como algo muito crível, seu personagem também não tem muita graça, e é difícil ter empatia pelo protagonista. Mas  traz um ponto de vista interessante que, além disso, com a chegada do candidato republicano à Casa Branca, Donald Trump, ganhou pontos em veracidade. Esse episódio foi uma prova definitiva que o grande trunfo de Black Mirror é nos fazer pensar sério, através de episódios que são bem escritos, bem interpretados e bem produzidos.

A segunda temporada de Black Mirror, contou com três episódios, o que faz com que paremos hoje por aqui… No texto de amanhã, faremos o review do terceiro ano da série e do especial White Christmas. Além, claro, de trazer as primeiras impressões da nova temporada, que estreia amanhã, dia 29, na Netflix.

 

 

 

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