O quarto ano de Black Mirror chega à Netflix no próximo dia 29/12 e nada melhor para se preparar do que relembrar os episódios das temporadas passadas. De hoje até sexta- feira, vamos passar por todos os capítulos já lançados dessa série, no mínimo, perturbadora. Nos acompanhe nessa viagem pelo submundo, um tanto quanto sombrio, do espelho negro.

Black Mirror é aquele tipo de série que faz quem a assiste ter os mais diversos tipos de reações possíveis. O criador Charlie Brooker afirma que o título da série se refere ao espelho negro que podemos encontrar em qualquer parede, em quase todas as mesas, na palma de toda mão: a fria e brilhante tela de uma TV, um monitor, um smartphone.

“Se a tecnologia é uma droga então quais são precisamente os efeitos colaterais?” – Charlie Brooker

Este espaço entre apreciação e desconforto é onde Black Mirror está localizada.

A primeira temporada da série tem apenas três episódios, com histórias independentes, que carregam uma profunda crítica ao vício em tecnologia que nos cerca e à sociedade atual em que estamos todos imersos. É sobre ela que falaremos hoje.

A PARTIR DAQUI O TEXTO CONTÉM SPOILERS

Hino Nacional (The National Anthem)

(Temporada 1, ep. 1. Direção: Otto Bathurst; roteiro: Charlie Brooker)

Sinopse: “O primeiro-ministro Michael Callow acorda com um telefone que muda sua vida. Quando a amada princesa Susannah é raptada, o sequestrador exige que ele faça algo, no mínimo, constrangedor.”

O episódio é absolutamente angustiante. Desde o início mostra como uma vida pode radicalmente mudar em um dia. O primeiro-ministro inglês Michael Callow (Rory Kinnear) é preso em uma armadilha mental onde tem que fazer sexo com uma porca para salvar a Princesa Susannah (Lydia Wilson), que foi sequestrada naquela madrugada.

A primeira visão que temos da situação é uma discussão dentro na reunião do gabinete de crise, onde o vídeo do sequestrador está sendo mostrado para ao governante. Primeiro a carga emocional da princesa sendo ameaçada, depois a única exigência. Sua humilhação ao vivo.

Daí em diante, acompanhamos a equipe de segurança britânica em uma corrida enlouquecida para tentar impedir a divulgação dos detalhes do resgate pela imprensa, ao mesmo tempo em que procura capturar o autor do vídeo antes do horário estipulado, criando ainda um audacioso Plano B para evitar a humilhação do primeiro-ministro.

O ponto chave do episódio é a importância da internet e das redes sociais na divulgação de notícias e rumores, algo totalmente incontrolável. A imagem do governo perante a população também é questionada, já que qualquer ato impensado faz com que a opinião pública transforme um herói em vilão ou vice-versa.

Um capítulo impactante, que golpeia o espectador e que determinou as bases do tom e estilo da série; E que de cara já levanta diversos temas como o já dito, poder da opinião pública, o preço a se pagar pela facilidade da tecnologia: a perda da privacidade, a credibilidade que a mídia tradicional confere aos fatos veiculados na internet (em especial a televisão). Moldamos o que vemos com a nossa audiência. Com a popularidade que oferecemos.

Ao fim do episódio, quando a equipe do gabinete do primeiro-ministro é informada que a princesa está livre, é nos mostrado que ela foi deixada sedada no meio da cidade meia hora antes do horário da exibição do primeiro-ministro. Em uma rápida reflexão, é perguntado o motivo do sequestrador ter feito dessa maneira.

Quando se chega à conclusão de que ele sabia que todos estariam em frente à televisão e que ninguém descobriria que ela estava na rua, sã e salva (e teoricamente não precisaria acontecer nada entre o primeiro-ministro e a porca). Então Alex Cairns (Lindsay Duncan), uma das assessoras dele mata a charada: essa era a mensagem.

Nesse momento, percebe-se que todos em Londres estavam vivendo em um mundo paralelo, independente. A fantasia se tornou maior que a realidade. Enquanto vivemos a presos no mundo digital, as coisas estão acontecendo aqui, no mundo real. Resultados concretos vindos de um mundo imaginado, criado pela mente de alguém que está no controle.

Quinze Milhões de Méritos (Fifteen Million Merits)

(Temporada 1, ep. 2. Direção: Euros Lyn; roteiro: Charlie Brooker e Konnie Huq)

Sinopse: “Quando um rapaz solitário conhece uma jovem novata, ele a convence a participar de um concurso de canto. Mas as escolhas feitas após a apresentação mudarão a vida destes dois para sempre.” 

O segundo episódio da temporada é um dos mais bem avaliados da série e não sem razão. Ele faz uma crítica, dura e crua a atual sociedade, que tenta achar uma fuga de sua vida tediosa, trancada em seu quarto, mexendo em seu celular isso enquanto cutuca os reallity shows e programas de talento que surgem a toda hora na TV.

A história acontece em um mundo futuro, onde os indivíduos vivem em ambientes 100% artificiais e quase que totalmente virtuais. A maioria da população vive uma rotina rígida e medíocre: acordar todos os dias no mesmo horário e passar horas pedalando para gerar energia. Com isso, cada pessoa acumula milhas, que é a moeda oficial. Porém, exceto pela comida, feita em laboratório, não há nada de real a ser comprado: só programas de TV (que contêm comerciais obrigatórios), jogos, atualizações para seus avatares e todo tipo de bugiganga disponível on-line. A única forma de escapar a esse destino medíocre é impressionar os juízes de uma espécie de show de calouros, conseguindo, assim, o passaporte para uma vida de celebridade.

15 Milhões de Méritos dispara contra várias frentes, como uma sociedade alienada levada ao extremo, oriunda de um lixo televisivo, o que é facilmente retratável atualmente. Um mundo futuro, mas muito presente. Um dos principais debates levantados por esse episódio, é o culto às celebridades, muitas vezes desprovidas de real talento, mas que alcançam a fama por mero acaso. Além claro, de sempre por em cheque nossa dependência tecnológica.

Funciona como uma crítica ao capitalismo? Funciona. E muito. O cidadão pedala o dia inteiro para juntar a moeda do lugar, o mérito. Se tiver força de vontade suficiente para gerar energia e um talento em mente, você junta méritos e compra a passagem para o show. Aprovado, muda de nível, “sobe na vida”” Se nem pedalar direito ele consegue, desce e faz faxina. Não é nada diferente da sociedade em que vivemos, nem mesmo em nível intelectual.

O protagonista apaixonado tenta quebrar os paradigmas, mas até que ponto conseguimos, realmente, ficar imunes à sedução da fama e do dinheiro? Em que momento os interesses pessoais se sobrepõem aos ideais revolucionários?

Toda a sua história (The Entire History of You)

(Temporada 1, ep. 3. Direção: Brian Welsh; roteiro: Jesse Armstrong)

Sinopse: “No futuro, todos gravam tudo o que eles ouvem, veem ou fazem. Mas esse extenso arquivo na memória pode causar danos irreparáveis.”

O último episódio da temporada nos trás uma realidade próxima. O conceito de privacidade mudou. Todas as pessoas têm um microchip chamado Grão implantado em suas cabeças para gravar todas as suas memórias 24 horas por dia. As memórias, no entanto, não são mais pessoais: são usadas no lugar de documentos para permitir o acesso a edifícios e embarque em voos, por exemplo. Além disso, as conversas são substituídas pela exibição das lembranças dos envolvidos.

Esse episódio não tem governantes transando com porcos ou cantoras se prostituindo, mas sem dúvida alguma foi o episódio mais agoniante dessa temporada. O protagonista aqui é Liam (Toby Kebbell), um jovem advogado, bastante seguro e confiante, com um dilema ético em sua profissão. Mas o maior dilema de sua vida é a desconfiança da amizade de sua mulher Ffion (Jodie Whittaker) com um outro cara chamado Jonas (Tom Cullen). E sua vida vai desmoronando conforme a dúvida aumenta.

Era para ser apenas mais um caso de ciúmes e discussões, se não fosse a tecnologia. Afinal, ele pode rever as próprias memórias e ver cada mínimo detalhe. Acompanhar Liam em sua busca para saber se sua esposa realmente o trai fica mais angustiante a cada pequena dica que é deixada na tela. O terror psicológico é extremamente bem construído.

Quando as lembranças perdem seu caráter individual, acabam também as mentiras e segredos. Será que isso é algo bom? E o que o fato de poder acessar eventos passados a qualquer momento, em detalhes, faz com as pessoas? Não há coisas que é melhor esquecer?

Esse episódio não tem uma ambientação tão futurística nem nada do tipo, mas mostra como uma simples tecnologia pode mudar as pessoas. Para mim foi o episódio que melhor explorou o conceito da série.

A primeira temporada de Black Mirror deixa os telespectadores com um gigantesco peso em nossas costas, uma amargura na boca e um embrulho inegável em nossos estômagos. Em apenas três episódios vimos que, de fato, há algo de muito errado em nossa sociedade. O segundo ano da série foi tão ou melhor que o primeiro, mas isso é assunto para o nosso texto de amanhã.

 

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