Hollywood sempre esteve em volta de problemas, do consumo de drogas a situações de violência. Atores são usualmente relacionados a excentricidades, e extravagâncias como as de Mel Gibson (uma pessoa conhecidamente antissemita e violenta, com relatos de agressão conjugal) já foram motivo de piadas em muitos lugares, especialmente no já tradicional South Park.

Hoje os consumidores se importam com esses eventos. Abusar de colegas de trabalho ou bater em esposa não é só causa para perda de credibilidade a serem convertidas em episódios de seriados de humor. O espectro de consumidores que têm voz aumentou drasticamente e, legitimamente, essas pessoas não querem consumir conteúdos produzidos por algozes de seus iguais.

A pergunta realizada por muitos dos consumidores desses materiais é: “como coibir a violência contra grupos marginalizados, celebrando materiais de agressores?”. Essa não é uma pergunta fácil de ser respondida e acaba ressoando mais e mais forte no espectador que, em última instância, nada tem a ver com esses infelizes eventos.

Os fãs de cinema/quadrinhos/video-games não querem se enxergar mais como alvo de violência ou como promotor desta. O que essas pessoas querem é um ambiente seguro de entretenimento, lugar onde podem, justamente, se desligar da realidade e conseguir ter momentos de lazer e descontração.

Do menos grave ao mais, a cultura pop é constituída por “n” figuras repreensíveis. Do H. P. Lovecraft e suas contínuas alusões racistas, Hergé e seu “Tintim no Congo”, Michal Jackson e suas muitas acusações de pedofilia e abuso infantil. As acusações contra os famosos não são novidade.

Entretanto, com o aumento do alcance da internet, esses eventos passaram a ter força e se perpetuarem. Dois cineastas de alta magnitude possuem histórico de abusos que impactaram diretamente o modo como seus fãs enxergam seus trabalhos.

Woody Allen, premiado diretor e roteirista, casou com a filha de sua namorada Mia Farrow. Soon-Yi Previn era a filha adotiva de Mia Farrow com André Previn. Após o divórcio com Previn, Mia Farrow iniciou um longo namoro com Allen, encerrando-se em 1992, logo após a descoberta de fotos de Soon-Yi Previn nuas na carteira de Allen, o que acarretou diversas acusações de abuso sexual por parte de Allen.

Allen e Soon-Yi Previn são casados até hoje e negam todas as afirmações de abuso sexual. Além disso, Woody Allen nega ter agido como figura paterna para Previn, apesar de seu relacionamento com Farrow ter iniciado em 1979 e ter durado 13 anos.

Além disso, a sua filha, Dylan Farrow também o acusou de abuso sexual. Allen diz que Dylan Farrow foi uma marionete na busca de vingança por Mia Farrow.

Ninguém que conviva com cinema de perto (seja fã, estudioso, consumidor ávido) passa direto por “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Manhattan”, “Meia-Noite em Paris”, “Crimes e Pecados”. Só que junto com essas experiências imperdíveis para a história do cinema, vem também a culpa por consumir o material produzido por alguém com esse histórico.

O outro cineasta problemático a ser citado é o Lars von Trier. O dinamarquês não só é conhecido por filmes imensamente densos e dramáticos, como também por suas inclinações eticamente questionáveis.

Filmes como “Dançando no Escuro”, “Dogville” e “Anticristo” parecem exercer uma agressividade contra a figura feminina que, com o tempo, foi causando mal-estar à audiência do von Trier. Ao passo que “Dançando no Escuro” e “Dogville” explora o sofrimento feminino de maneira visceral (ainda que suas personagens alcancem “retribuição” no final de suas jornadas), “Anticristo” traz uma trama em que a obsessão pelo feminicídio, ocorrido através da história, leva uma mulher à uma franca “misandria”, objetivando matar marido e filho. Apesar do final do filme confirmar a visão homicida em que séculos de abusos contra as mulheres resultaram, aparentemente há uma visão de violência reversa imaginada pelo diretor, que causa desconforto em audiências politicamente engajadas.

Se esses apontamentos já não fossem graves, em um determinado momento, algo entre o lançamento de “Anticristo” e “Melancolia”, von Trier afirmou “não estranhar tanto as convicções e crenças de Adolph Hitler”, líder do nazismo alemão e promotor do holocausto, uma das grandes tragédias do Século XX.

Além disso, no atual ciclo de denúncias iniciadas no mês passado em Hollywood, a cantora islandesa Björk trouxe a informação de que teria sido abusada por von Trier durante as filmagens de “Dançando no Escuro”.

Dançando no Escuro: filme onde a cantora fora abusada por von Trier

Não dá para dizer que Allen e von Trier não sejam bons cineastas. Seus filmes fazem parte da história do cinema, não temos como apagar isso. Mas o que fazemos a partir daqui, com todas essas informações e eventos? Como apagar a memória de excelentes obras, ignorando as informações desses eventos horríveis? Ao assistir e admirar obras desses autores, estamos validando suas ações passadas?

Em Hollywood, estourou um dos maiores ciclos de denúncias de abuso, nunca antes vistas. Iniciadas com Harvey Weinstein, um dos maiores produtores cinematográficos (acusados de mais de 50 casos de assédio), uma enxurrada de situações de abuso saíram das sombras. Brett Ratner (o diretor de X-Men 3, expulso da produção da Mulher Maravilha 2), Kevin Spacey, Roman Polanski (ressurgido do passado), Dustin Hoffman, Ben Affleck (ressurgido também), Steven Seagal, James Toback (acusado de numerosos 300 casos), Bob Weinstein, Silvester Stallone.

Uma das últimas notícias envolvendo esses casos se refere ao Johnny Depp, que estrelará Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindewald. Com protestos em todas as escalações feitas desde as suas primeiras denúncias de abuso, os fãs de Harry Potter sempre tentam recorrer à sua criadora, J. K. Rowling, conhecidamente progressista e humana, para que intervenha nos processos de produção dos filmes e pleiteie a demissão do ator, acusado de agredir a própria mulher.

Depp: abusador premiado com papéis de destaque

Hoje, o que acredito, é que o que está feito, está feito. Eu já assisti Dançando no Escuro. Eu já amo esse filme. Eu já me sinto conectado a ele desde 2003. Não tem como, na segunda década desse século, eu negar o que eu sinto e simplesmente não botar a mão nele mais. O filme já está feito.

O mesmo vale para todos os casos. Os filmes já foram feitos, já foram consumidos, já foram premiados. Negar a história, negar a existência deles, não me parece sequer possível.

Mas é possível eu discutir os seus envolvidos. É possível eu mencionar, sempre que discutir Woody Allen, que ele cortejou a filha de sua própria companheira até conseguir se casar com ela e que vedou todas as acusações de assédio da sua outra filha de sangue. Eu posso fazer alguém pensar no assunto e colocar sobre perspectiva algo que ela nunca tenha pensado antes.

Eu amo Edward Mãos de Tesoura e Noiva Cadáver, mas isso não significa que eu preciso ficar contente com a escalação de Depp para um papel de destaque em um filme de uma franquia que amo. Eu posso reclamar, é meu direito como consumidor. Todos podemos e isso pode repercutir. Inclusive eu posso, me negar a ver, dependendo de como esse caso mexe comigo.

Eu sou absolutamente contra a presença de Depp em filmes da franquia Harry Potter, mas, possivelmente, eu veria o filme mesmo assim. Sob protesto, sob crítica, torcendo para a Warner ter um jeito de analisar as manifestações mundiais dos seus consumidores e afastar esse cara da sua produção (espero que isso ocorra agora, com a força que essas acusações vêm tomando perante a mídia), mas eu veria. Contudo, pode ser que a minha esposa, por ser mulher, por se colocar no lugar da vítima de Depp, outra mulher, e por ter medo diariamente de ser agredida só por ser quem é, opte por não ver, não queira contribuir com nada envolvendo esse tipo de ator.

Então até onde consumir esses materiais produzidos por seres humanos ruins? É uma pergunta absurdamente difícil e qualquer “cartesianismo” na resposta será algo repleto da mais pura falsidade. Algumas pessoas jamais perderão tempo em dizer que nunca mais consumirão nada de qualquer abusador e que Depp e qualquer um dos que consumirem seu material, concordando ou não, são cúmplices de seus atos.

Não se trata de relativizar o abuso. O abuso deve ser, absolutamente coibido e absolutamente punido. As empresas prezam pelas suas imagens, e isso em qualquer grau profissional. Então se esses casos não são permitidos nas esferas “mundanas” de nossas vidas, acho prudente que atores sejam afastados de suas participações até que eventos como esses que noticiamos sejam esclarecidos. E não se preocupem: nem Depp, nem Weinstein, nem Spacey e nem nenhum deles vai morrer de fome por tirar férias de um ou dois anos das telonas.

Então acredito que consumir ou deixar de é prerrogativa de cada um, a medida que o caso lhe toque mais o coração. É uma situação humana, não exata. Se não é exata, não me parece que uma solução matemática/binária tenha espaço. Não há como classificar consumidores que lidam com essas situações, cada um a sua maneira. Todavia entendo ser premente a discussão, o questionamento, a manifestação em redes sociais, a cobrança dos envolvidos. Esse é o nosso poder e direito.

O machismo é estrutural em nossa sociedade. Ele existe como parte do nosso macroverso e o fato do cinema ou da cultura pop pertencer a esse macroverso só faz com que os “sintomas do mundo real” acabem infectando o “nosso” microcosmo. O caso Weinstein não é novidade se pararmos pra pensar que o próprio Charles Chaplin era uma figura ligada aos relacionamentos abusivos com garotas menores de idade , muitas vezes até tangenciando a pedofilia.

E aí o espectador “consciente” se tortura. Eu assisto “Tempos Modernos” e me torno o que? Quando me encanto com “Coração Valente”, eu viro um agressor de mulheres, como o Mel Gibson? Mas o fato de eu reconhecer no Gibson uma pessoa horrorosa faz com que Mad Max 2 seja um filme menos encantador? Nesse caso, o George Miller merece ser “sentenciado” junto com o Gibson (já que o filme não foi feito sozinho pelo ator).

Alguns acham que simplesmente devemos separar o autor e sua obra. Ora, se omitir é seu direito também. Mas acho que coibir o direito de manifestação das pessoas que se sentem incomodadas com esses eventos um ato de tamanha comodidade, que entendo ser uma medida tão reprovável quanto obrigar alguém a tomar uma postura. Acho que a ação parte de cada um e não há como demonizar aqueles que não se interessam em tomar o partido em determinada discussão.

Bill Cosby foi denunciado na animção Bojack Horseman. Pena que ninguém fez nada.

Eu não sei a solução imediata para tudo isso, mas sei que a promoção da diversidade em todas as esferas chaves da sociedade é uma medida que, a longo prazo, vai contribuir muito para que textos como esse não tenham a necessidade de ser redigidos. Uma produção que envolva mulheres, negros, público LGBT em cargos estratégicos pode ser o primeiro passo para que Hollywood se cure de tudo isso que presenciamos nos últimos tempos.

Aos espectadores, só resta a consciência de que cada um é legítimo para agir e se posicionar como lhe for pessoalmente mais confortável. Ninguém deve ser obrigado a fazer ou deixar de fazer nada que se sinta bem, e os posicionamentos devem ser pessoais e respeitados.

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