Sinopse:

Mitsuha Miyamizu (Mone Kamishiraishi) é uma jovem que mora no interior do Japão e que deseja deixar sua pequena cidade para trás para tentar a sorte em Tóquio. Enquanto isso, Taki Tachibana (Ryûnosuke Kamiki), um jovem que trabalha em um restaurante italiano em Tóquio, deseja largar o seu emprego para tentar se tornar um arquiteto. Os dois não se conhecem, mas estão direta e misteriosamente conectados pelas imagens de seus sonhos.

O jovem no Brasil não quer levar a animação japonesa a sério, já diria o saudoso Chorão. Em solo brasileiro, os famigerados animes ainda devem traçar uma verdadeira olimpíada do Faustão pra serem levados a sério. Isso porque:

  • Como os desenhos de maior sucesso foram shonens de luta,  o grande público associa qualquer desenho “de olhão” com desenho de luta, violento ou gritado;
  • Há uma propensão gigante do grande público em associar suporte físico à qualidade intrínseca do material. Se é desenho, é infantil. Se é desenho japonês, é duas vezes mais infantil. “Já viu esses cosplays? Coisa de gente que tem doença. Já ouvi dizer que há pessoas que se vestem assim e nunca se comporta normalmente. Eu sei, já li sobre psicologia, eu sei sim.“;
  • O público que até tem capacidade de discernimento entre um tipo de material e outro tende a não se interessar por “desenhos japoneses “cabeça”” (sim, usei aspas dentro de aspas… EU posso!), já que soa como pretensioso e feito por “otaku que quer se sentir inteligente“;
  • O próprio público otaku privilegia materiais que estão em alta (os ditos “animes da temporada”) e acabam deixando de lado aqueles que podem se sustentar fora do seu próprio círculo fechado.

Fora isso, o mercado ocidental acaba se submetendo ao “olho-que-tudo-vê” chamado Walt Disney Pictures, que acaba chamando pra si a supremacia das animações “arrasa-quarteirão”. Só isso para explicar porque O Conto da Princesa Kaguya de Isao Takahata não faturou o Oscar no ano que concorreu (sendo que Vidas ao Vento foi outro anime injustiçado e deixado de lado em função de algum desenho Disney “bom-pero-no-mucho”).

Então acho que apreciadores das boas obras vindas lá do outro lado do mundo acabam ficando carentes com lançamentos atrasados (Kaguya e Your Name. foram lançados por volta de um ano de atraso e A Tartaruga Vermelha só circulará por aqui agora na 41ª Mostra Internacional de Cinema) ou ultra restritos, e com este título não foi diferente.

Your Name. recebeu um lançamento absolutamente inglório em terras-tupiniquins. Não só foi reduzido à meia dúzia de salas de uma rede de cinemas (PODEMOS CITAR O NOME DE VOCÊS DEPOIS DE UNS CONTRATOS DE ANÚNCIO, QUE TAL? POR GENTILEZA, BUSCAR NOSSO DIRETOR DE MARKETING) como, sequer, teve o seu nome localizado. Aliás, eu custo a me acostumar com a bizarrice ocorrida com o título do filme por aqui, que manteve a grafia americana sabe lá deus por qual motivo. Com o mercado de mangás ainda em alta, não teria problemas em recebermos o título com o nome original (inclusive, por se tratar de um lançamento de nicho, a grafia japonesa do título agradaria ainda mais o público-alvo).

Como somos do time do “copo meio cheio”, ao menos podemos celebrar essa obra maravilhosa em uma exibição oficial de cinema, com tela grande e a imersão que Makoto Shinkai nos oferece com tanto entusiamo.

Sem exageros, essa é a beleza padrão da animação

Shinkai é considerado por entusiastas como o novo Hayao Miyazaki. Prefiro acreditar que ele não seja o novo, mas sim o Miyazaki-sensei que essa geração merece. Brincadeiras a parte, sim, os trabalhos de Shinkai vieram em uma crescente de qualidade impressionante. Não por acaso, ele é um dos únicos diretores japoneses com sua filmografia quase que na íntegra em um dos serviços de streaming mais acessados do Brasil. Jardim das Palavras é a sua melhor obra disponível por lá (e ouso dizer ainda melhor do que Your Name.), por ser ao mesmo tempo consistentemente madura, sensível e estonteante. Algumas das melhores animações 2D que já vi na minha vida estão ali, e este desenho deve ser visto na maior resolução possível, para se encantar com cada gota d’água atingindo o chão.

Com toda essa experiência acumulada, era hora do diretor se por a prova. Com um orçamento parrudo, um tempo de trama muito superior aos seus filmes anteriores (O Jardim das Palavras tem apenas 46 minutos), Shinkai resolveu se posicionar entre os gigantes e lançar, finalmente, sua primeira “hiper produção”.

Temos todos os motivos para crer que, ao menos em números, ele alcançou o que pretendia.

Your Name. é uma das maiores bilheterias da história do Japão e da animação mundial. É recebido com entusiasmo por onde quer que passe e os valores de arrecadação são BEM expressivos, alçando Makoto Shinkai como o diretor de longas animados japoneses mais importante em atividade (já que vários nomes do Studio Ghibli resolveram jogar a toalha do ramo).

Sob um aspecto global, Your Name. é fantástico e derruba qualquer filme de super-herói lançado até 25.10.2017 e a grande maioria dos blockbusters desse ano. Em cinemas tupiniquins, melhor que este, somente Em Ritmo de FugaCorra!Dunkirk. Se você leu isso e se sente estranho por eu não ter citado LoganMulher-MaravilhaPlaneta dos Macacos: A Guerra, Fragmentado ou mãe!, o motivo é simples: nenhum desses supera Your Name.

EMBORA, AINDA ASSIM, YOUR NAME. ESTEJA LONGE DE SUCESSOS ANIMADOS DE ANOS ANTERIORES, COMO O JÁ CITADO “O CONTO DA PRINCESA KAGUYA”, “DIVERTIDA MENTE” E OUTROS.

O que quero situar aqui é que, ao mesmo tempo em que estamos diante de um trabalho excepcional, Your Name. está longe de ser um “melhor da década”, por exemplo. Está longe de ser uma animação definitiva e peca pela ausência de ousadia em diversos momentos.

(Talvez seja 2017 que esteja sendo um ano fantástico-pero-no-mucho).

O filme se trata da velha história da troca de corpos. Dois adolescentes, algumas vezes por ano, acabam acordando aprisionados no corpo do outro. Então após o estranhamento inicial proveniente da descoberta do novo gênero (meninas têm seios e meninos têm pênis), cada um deles vai viver a vida privada do outro.

Se você pensou em Tony Ramos Glória Pires, o caminho está correto.

Enquanto Mitsuha é uma garota do interior, presa nas tradições religiosas da família e filha do político local, Taki é um garoto morador de Tóquio, trabalha em um restaurante, mora com seu pai e tem tudo que uma das metrópoles mais importantes do mundo tem a oferecer.

A vida de Taki é tudo o que ela sonhou, representando a liberdade da claustrofobia interiorana. Por outro lado, ele, quando no corpo dela, pode vislumbrar as belíssimas paisagens do interior, fomentando o seu sonho de ser um arquiteto.

As habilidades de ambos beneficiam o outro nesses momentos de troca. Ela, no corpo dele, se permite ser mais sensível com o que vive a volta de Taki. Quando a situação se inverte, ele, no corpo dela, se permite ser mais contestador e assertivo, afastando assim a maldade dos bullies padrão de Mitsuha.

Obviamente, diante desse cenário, era esperado que os laços dos dois se estreitassem, mas não é exatamente o que ocorre. Embora a animação se esforce para nos mostrar o quanto a complementariedade deles é bem-vinda, protagonistas não têm tempo para se dedicarem, efetivamente, um ao outro. Por isso, quando na terceira parte, o longa toma outro direcionamento, fica um gosto de ferro na boca, já que o vislumbre de forçação de barra passa pelas nossas cabeças algumas muitas vezes.

POR OUTRO LADO, é um exercício interessante pensar que o caminho da empatia completa (é como consigo definir o que ocorre entre eles) pode desembocar nesse sentimento de amor romântico mesmo. É como se houvesse uma mensagem de que a relação amorosa não-fraternal/paternal imprescinde de empatia, o que é, justamente uma mensagem dada na pegada da contra-mão do mundo e do Japão (especialmente), onde casais cada vez mais vivem solidões compartilhadas.

Quando tudo parecia correr numa mão, um evento de proporções catastróficas toma, inadvertidamente, a cena, dando ao longa um caráter totalmente inesperado (ao menos para quem acompanhou o material de divulgação), saindo do lugar de expectativa para o campo do desconhecido, o que é uma jogada de mestre e se torna um dos principais motivos para o sucesso do anime.

O final chega a assustar pela semelhança com os trabalhos pretéritos de Shinkai. Quem viu O Jardim das Palavras e Cinco Centímetros por Segundo vai começar a desencadear uma ansiedade no sentido de que “não, isso não pode estar acontecendo”. Quando nos damos conta, já estamos na mesma posição do final dos outros desenhos, o que gera um incômodo incrível, encerrando-se no momento em que o diretor agarra sua dignidade de volta e decide dar ao longa um final que, apesar de não ter nenhuma grande novidade em relação a tudo que já vimos de cinema até aqui, é bem divergente de seus trabalhos anteriores, o que causa um alívio impar.

Alguns eventos do desenho podem nos causar estranheza pelo choque cultural da direção (afinal de contas, a condução de filmes orientais costuma ser bem diferente das conduções de filmes Hollywoodianos), enquanto outros podem nos parecer tomadas incompletas. Your Name. detém a proeza de desenvolver sentimentos em meio a uma inesperada “trama de desastre”, o que justamente requer a atenção do espectador para discernir o que é uma direção culturalmente diversa ou o que é, simplesmente, uma direção preguiçosa.

O que pode soar preguiçoso aqui é justamente o desenvolvimento tímido do sentimento dos dois personagens em si, a construção de Taki e a falta de diversidade de personagens e situações. Taki é o típico garoto “coisa alguma” de outros 500 desenhos japoneses que já vimos (e, no fim, pouco é revelado da sua vida pessoal e dos seus anseios) e a maioria dos outros personagens são elementos de lugar comum já visto em outras oportunidades, fazendo com que Your Name., muitas vezes, seja um reprodutor de algo estabelecido (ok, estamos falando de um reprodutor LINDO, mas aquela “pontinha” de Ghibli faz muita falta).

Falando em ausência de ousadia, o anime investe em diversos aspectos estabelecidos na cultura pop, que empobrece o material. A trilha sonora repleta de “pop feliz”, a abertura semelhante a um episódio dos desenhos do Crunchyroll acaba trazendo um retro gosto amargo de “anime padrão”, especialmente para quem está acostumado com o padrão Ghibli de qualidade.

A animação dos personagens nunca apresenta nada de mais, tanto do estilo adotado para eles quanto do próprio design. Aqui a escolha foi pela “primeira camiseta encontrada no armário”. Já QUALQUER elemento que não seja um personagem é tão belo que coloca, fácil, o desenho no altar da animação 2D mais bela já feita.

Se houver lágrimas, elas aparecerão quase reais. Os cenários urbanos são majestosos e repletos de elementos para te provar que a cidade nunca para. As cenas do campo são belíssimas e amplas, demonstrando que a claustrofobia de Mitsuha advém, justamente, da opressão da natureza e da comunidade inserida nela: diferente de Tóquio, aqui as pessoas têm tempo de olhar, lembrar, comentar e julgar você, e não há prédios ou metrôs lotados capazes de distraí-las e deixar você viver sua vida em paz. Os contrastes de luz e sombra reforçam a vida dos ambientes, nos fazendo quase crer que estamos vendo uma reprodução fotográfica do mundo real.

Os planos contemplativos de ambos os ambientes, bem como os closes mais lentos nos protagonistas a cada vez que eles descobrem algum sentimento novo é o combustível que te levará a simpatizar com eles e empatizar com os sentimentos ali presentes, ninguém pode dizer que o diretor não sabe usar os recursos audiovisuais disponíveis para te emocionar.

Há pequenas experimentações aqui, que seguem a qualidade visual dos planos mais correntes, mas nada digno de nota. Essas experimentações ocorrem em um momento bem específico da trama e serve para situar o expectador de que uma alteração naquele plano espaço/temporal está ocorrendo. É um recurso belíssimo, mas que poderia ter sido usado também em outras oportunidades para sair do “jogo ganho” aplicado até o fim da fita.

Your Name. tem a capacidade de provar ao público mainstream a extensão e a profundidade sentimental da animação japonesa, que está há um século na frente da maturidade da animação americana corrente. Infelizmente o público brasileiro deixará de contemplar o conteúdo por associá-lo a qualquer Bernardo e Bianca, como se toda animação fosse a mesma coisa só por ser animação. Inclusive, conversando sobre o desenho com um amigo, ele me questionou se, em nenhum momento, teve cantoria Disney.

Apesar da beleza estonteante e da sensibilidade e maturidade ímpar que deveria ser assistido por qualquer pessoa que tem apreço por cinema, Your Name. sofre de um lançamento desprivilegiado no Brasil e de algumas faltas de ousadia que, caso supridas, teria colocado o filme, efetivamente, entre um dos alicerces da década. Makoto Shinkai está no caminho certo para assumir um reinado que, de antemão, já afirmam que é seu. Entretanto, o espectador que acompanha esse nicho de produção certamente irá compará-lo com outros gigantes, comparação essa que é implacável em desfavor de Your Name.

É belo e ótimo e um dos melhores de 2017. Todavia, tenham certeza de que, nesse lustro mesmo, o Japão já nos proporcionou coisas ainda mais brilhantes, o que só firma o país como lugar número 1 para quem curte desenhos.

NOTA FINAL:

 

 

 

FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Makoto Shinkai
Título Original: Kimi no na wa.
Gênero: Animação/Drama/Romance
Duração: 1h46min
Estrelando: Ryunosuke Kamiki, Mone Kamishiraishi, Masami Nagasawa, Etsuko Ichihara, Ryo Narita, Aoi Yūki, Nobunaga Shimazaki, Kaito Ishikawa, Kanon Tani
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 11 de outubro (Brasil)

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