Sinopse:

Trinta anos após os eventos do primeiro filme, um novo blade runner, o policial K (Ryan Gosling), do Departamento de Los Angeles, desenterra um segredo que tem o potencial de mergulhar o que sobrou da sociedade em caos. A descoberta de K o leva a uma jornada em busca de Rick Deckard (Ford), um antigo blade runner da LAPD que está desaparecido há três décadas.

Continuações nunca foram vistas com bons olhos. Considerado um artifício caça-níquel, sequencias imprevistas costumam ser apenas artifícios para os estúdios levantarem verba fácil com algo que já se provou no mercado. Alguns exemplos causaram danos enormes ao legado que havia sido construído com seus antecessores (como as de Robocop); outras são tão obscuras que muitos sequer sabem da existência (como Efeito Borboleta 2). Raros são os casos que repetiram o feito de O Império Contra-Ataca (inclusive O Retorno de Jedi e as “pré-sequências” da década passada reforçaram, com força irrefreável, a desconfiança do público com o abuso desmedido de estúdios).

Mas como toda onda inesperada, alguns “efeitos manada” costumam surpreender e marcar época. Com a moda das “sequencias tardias”, estamos sendo presenteados com excelentes trabalhos que expandem universos que já amamos.

Ao depositar grandes franquias nas mãos de diretores de primeira linha, o público foi presenteado com continuações de primeiríssima grandeza. Depois do infanticídio cometido por George Lucas nos episódios I, II e III, ninguém esperava que Star Wars seria revivido, continuando a partir do fim do episódio VI com um filme pra lá de competente, graças ao J. J. Abrams.

Contemporâneo ao episódio VII tivemos sequencias de Mad Max (Estrada da Fúria foi vencedor de 6 Oscars, dirigido pelo seu idealizador original, George Miller), Rocky Balboa (Creed, dirigido pelo Ryan Coogler, venceu diversos prêmios por onde passou, com uma indicação memorável ao Oscar para Sylvester Stallone), e, por fim, o exemplo presente, a retomada do clássico absoluto, Blade Runner.

A ambientação do novo longa mantém a essência da série

2049 é um pesadelo de muitas pessoas, que se tornou um sonho. Quando anunciado, foi recebido com negativo estardalhaço: era óbvio que iam estragar o legado de uma das obras definitivas dos anos 80. Isso até anunciaram O nome.

Denis Villeneuve já tinha despertado um forte interesse do público mais cativo com o longa Sicario, mas foi com A Chegada que a boa impressão se tornou hype inabalável: este último foi elogiado por diversos portais, teve uma bilheteria relevante e foi sucesso de crítica. Só restavam dúvidas por parte daqueles que não conheciam o trabalho do diretor. Além do que, já que a continuação sairia de qualquer maneira, nada melhor que depositar as fichas em alguém que está no ponto alto de sua criatividade e competência, do que deixar nas mãos de Ridley Scott, que há mais de uma década não acerta um longa metragem sequer, que deu sorte com Perdido em Marte, mas que não teve piedade da franquia Alien, enterrando-a ainda mais fundo com a infame continuação Convenant.

Villeneuve, sem estar infectado pelo vírus “prometheus mas não cumprius”, cumpre o hype. E isso se depreende do quadro de abertura. O novo diretor respeita o estabelecido, replica o clima e incrementa aquele universo com sua visão cinematográfica bem particular, fazendo de Blade Runner 2049 uma obra que, ao mesmo tempo em que é indiscutivelmente sua, também pertence a um universo próprio. Trata-se de evolução sem egolatria.

E que difícil é criar algo seu sem se auto reverenciar.

K é um replicante que atua, basicamente, na “aposentadoria” de outros modelos da sua “espécie”. 30 anos depois, esses “equipamentos” apresentam estabilidade maior do que as versões que conhecemos até aqui (ou seja, são mais obedientes), mas ainda assim não reproduzem toda a “capacidade” humana em sua “plenitude”. Esse cenário é o fio condutor da trama e delimitador da personalidade do protagonista: embora seja uma existência avançada no que tange à tecnologia embutida, K anseia por algo mais. Tal como as pessoas do nosso dia-a-dia, K é a existência descontente em si mesma, que apesar de todos os indícios apontando para sua plenitude, é incapaz de se satisfazer com uma realidade incompleta.

Se todos sabemos do que se trata Blade Runner, então podemos imaginar as ansiedades do protagonista e os seus paralelos, que podem ser resumidas pelos sentimentos do Projeto 2501/Mestre dos Fantoches (de Ghost in the Shell), Vivi (Final Fantasy IX) e Lain (Serial Experiments Lain).

O antropocentrismo sugere que a única senciência válida é a humana, ignorando todos os outros tipos. Se no mundo real ignoramos a validade da dor e das sensações de outros seres, neste universo a vida “concebida” é muito mais valorizada do que a “criada”, ainda que ambas compartilhem memórias, experiências, ansiedades e vontades. E é aí que K compartilha o mesmo tipo de reflexão (obviamente, a sua maneira) do que outros “autômatos” existencialistas. Até onde se estende a humanidade de um ser “projetado” e quando uma descoberta é capaz de demolir essa barreira, o que isso pode significar para a vida em sociedade?

Por se tratar de uma distopia, a condição do mundo está longe da nossa: replicantes são vistos aos montes nas ruas, prontos para servir desejos sexuais dos interessados; os recursos naturais estão escassos; o solo está praticamente incapaz de produzir vida; pessoas reduzidas à miséria estão absolutamente afastadas dos centros urbanos, vivendo em zonas de risco; os conglomerados comerciais tomaram conta das grandes cidades e tudo parece ser uma grandiosa propaganda globalizada.

Ryan Gosling é quase perfeito para o papel. Considerando se tratar de um ser “construído”, ele passa muito bem a ideia de um ser artificial, resultante de uma engenharia programada mas não enclausurada. Ele segue suas diretrizes básicas, mas tem anseios e desejos que cada vez mais o afasta de sua diretriz. Entretanto, as cenas de ação “física” não exatamente convencem.

Harrison Ford  retorna ao papel de Rick Deckard, cansado e assustado pelos eventos que passaram. Apesar de ser chave da trama atual, ele não rouba o protagonismo de K. Protagoniza com Gosling uma das cenas mais bonitas do filme, em um conflito de luz e sombra cheio de sub textos e metáforas, além de, principalmente, deixar ainda em aberto uma das maiores discussões envolvendo a franquia (o que é ótimo).

Ana de Armas (Cães de Guerra) interpreta o holograma Joi, par romântico do policial K. O nome da personagem não é esse ao acaso, e em diversos momentos ela confirma o que seu nome sugere: a intenção de entregar alegria ao seu proprietário. Por mais que soe misógina sua participação, há uma sugestão de reflexão muito pertinente no seu arco, já que as relações amorosas vividas hoje já são plenamente idealizadas, o que se agrava com a ascensão das redes sociais voltadas para relacionamentos, com a crescente “configuração” do nosso par romântico por meio de cardápios virtuais. A humanidade presente nas relações e todas as nuances que a acompanham, como conflitos, entendimentos e adequações, dão lugar à certeza da compatibilidade, advinda dessa nossa necessidade de nos relacionar apenas com aquilo que intrinsecamente  atende às nossos desejos. Isso se exponencia, justamente, no papel de gênero atribuído às mulheres e é retratado como o destino final de uma sociedade disfuncional. Sua distopia reside na artificialidade dos envolvimentos amorosos, na “alegria” concedida por aquilo que apenas queremos ouvir, ainda que seja desprovido de alma e vontade, e os homens detém essa necessidade por séculos. A busca por sexo pago (prostituição, para os leigos) é o reflexo dessa completa inabilidade do homem de se submeter à troca inerente à relação, resultando em uma satisfação sexual inteiramente unilateral, o que para muitos bastou por séculos. O que impede uma realidade disfuncional de apresentar seres “irreais” voltados à se submeter à alegria masculina, quando hoje homens de todo o globo buscam apenas prazer e relações robotizados, dedicados e desprovidos de alma e vontade própria? Caminhamos rumo à uma danação anunciada, e o homem, antigo e contemporâneo, sempre viu essa danação com olhos brilhantes.

O quanto de superficial há em amores verdadeiros de hoje?

Sylvia Hoeks interpreta Luv, outra personagem cujo nome não fora escolhido por um acaso. Luv, como o “primeiro anjo” de seu criador, persegue o objetivo de atender às expectativas de tudo que se espera de um replicante perfeito. O problema reside justamente na hipótese desse ser não atingir ao patamar buscado pelos protagonistas, que seria a chave de mudança para o status da sociedade. Então o que lhe resta é se dedicar com absoluta “paixão” àquilo que foi designada, para atingir, ao menos, uma perfeição presumida, nos limites daquilo para o qual fora construída.

Por fim, Jared Leto é Niander Wallace, o dono e idealizador da corporação que sucedeu os negócios da Tyrell Corporation. O tom messiânico é até engajante, mas não faz mais do que nos lembrar que ele é o novo “chefe” e só. É um papel que poderia ser muito melhor explorado, mas que fica à deriva do que fora exposto ao público nos materiais de divulgação. Não que o papel seja ruim, mas há pouco tempo em cena para Leto desenvolver o personagem e fincar sua importância na história.

A trilha sonora composta por Hans ZimmerBenjamin Wallfisch emula muito bem aquela composta por Vangelis, dando ao longa um aspecto oitentista e contemporâneo ao mesmo tempo (se fechar os olhos, vai parecer que Blade Runner 2049 é uma sequencia lançada logo após o longa original, ao mesmo tempo em que tudo aqui soa atualizado).

A direção de fotografia de Roger Deakins reforça o caráter atemporal da trama. Para os velhos fãs, não há uma aparente barreira do tempo, enquanto para os novos espectadores o filme vai apresentar uma estética poucas vezes apresentada nos dias de hoje.

Villeneuve dirige empregando sua marca. Há tomadas contemplativas que carregram a “tranquilidade” do longa. O corte, de quase 03 horas, resulta em um trabalho que requer o comprometimento do seu público em absorver a história. Não é um longa-metragem para turistas, mas sim para pessoas que estão prontas para se entregar às menores nuances e discussões propostas. Não significa que seja de difícil digestão, mas apenas que pode causar uma “estafa” naqueles que buscarem uma experiência fugaz blockbuster.

Ainda sobre estética, Villeneuve deixa para o final um confronto tão lindo quanto o gravado por Scott, apesar da falta de maestria na condução de cenas de ação. O final do longa, especificamente, apresenta um cenário de encerramento (embora olhos mais desatentos não vejam isso) e é muito mais positivo do que o de 1982, exaltando o livre arbítrio e a autonomia da vontade.

Foi isso que Rupert Sanders tentou fazer com Ghost in the Shell e não obteve êxito

Blade Runner 2049 é um filme que pode ser interpretado como arrastado por alguns. Para os outros que forem ao cinema dispostos a experienciar o longa, temos aqui um belíssimo longa sobre um policial solitário que conflita o seu existencialismo e a sua sede de importância. Em um modo altamente corporativizado, Villeneuve vislumbra a dissipação do espírito em troca de realizações efêmeras que entregam, sem alma, o que desejamos. A validade de nossa existência correlacionado com a consistência de nossas memórias pode ser constantemente discutido e antagonizado, mas são nas nossas ações que superam essas memórias que encontramos a redenção da liberdade.

Não nos definir por uma existência mercantilizada que sempre tenta nos convencer que somos especiais acima de tudo, ou pelo passado que compõe nossas memórias, mas sim pelas nossas ações do presente, submetidas à nossa força de vontade, é a liberdade que deve ser almejada e alcançada.

NOTA FINAL:

 

 

 

FICHA TÉCNICA
Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green
Título Original: Blade Runner 2049
Gênero: Ação/Aventura/Drama/Ficção Científica
Duração: 2h43min
Estrelando: Ryan Gosling, Harrison Ford, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Robin Wright, Mackenzie Davis, Carla Juri, Lennie James, Dave Bautista, Jared Leto.
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 05 de outubro (Brasil)

Comments

comments