Ela está em todo lugar

Hollywood tem passado por dias turbulentos de discussão sobre os abusos sofridos por funcionárias e atrizes no meio artístico. Tudo começou com uma investigação do jornal The New York Times onde o produtor Harvey Weinstein foi acusado de assédio, por pelo menos 13 mulheres ligadas ao meio cinematográfico e televisivo. Atrizes como as americanas Mira Sorvino, Rosanna Arquette, Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie, além das francesas Emma de Caunes, Judith Godrèche e Léa Seydoux e da inglesa Cara Delevingne, relataram episódios de assédio envolvendo o produtor. Os fatos teriam acontecido ao longo de um período de cerca de 30 anos. Mas, antes de entrarmos no debate que quero propor, vamos por partes…

– Quem é Harvey Weinstein?

Considerado pela Time, em 2012, uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, e condecorado com uma metalha da Ordem do Império Britânico pela sua contribuição para as artes, Weinsten, de 65 anos, é produtor de cinema e magnata de Hollywood. Ele cofundou a Miramax em 1979, estúdio que produziu e distribuiu filmes independentes aclamados, como Pulp fiction, de Quentin Tarantino, Sexo, mentiras e videotape, de Steven Soderbergh, e O balconista, de Kevin Smith. Ganhou um Oscar por Shakespeare apaixonado e em 2005, ao lado do irmão caçula, Bob, fundou The Weinstein Company.

– Harvey Weinstein e a Academia de Hollywood

A Academia de Hollywood, que organiza o Oscar, anunciou no último sábado que expulsou o produtor do seleto clube. A expulsão representa uma importante mudança de rumo na Academia, que durante anos defendeu que as conquistas profissionais estavam separadas de escândalos. Por isso, rejeitou expulsar o comediante Bill Cosby, acusado de abusos sexuais por cerca de 60 mulheres.

 

A instituição também não expulsou o cineasta Roman Polanski, acusado de abuso de menores, e nem reprimiu o ator Mel Gibson, que em 2006, em estado de embriaguez, proferiu duros comentários contra os judeus e em 2010 agrediu a então namorada.

Por meio de um comunicado, a Academia enviou ao mundo a mensagem de que “a era de ignorância intencional e vergonhosa cumplicidade em relação ao comportamento dos predadores sexuais e assédio nos locais de trabalho em nossa indústria chegou ao fim”.

Um pequeno passo para a Academia, um grande salto para as mulheres, sem dúvida.

Feita uma breve apresentação do personagem principal desse texto, vamos ao que interessa… O debate que veio a tona agora, mostra que só apareceu a ponta do iceberg. Não só porque outros homens, como Ben Affleck, Matt Damon e Quentin Tarantino aparentemente acobertavam Weinstein, mas também porque surgem indicações de outros criminosos na indústria cinematográfica e televisiva.

Que Harvey tenha conseguido permanecer tanto tempo impune não é, nem de longe, um problema específico de Hollywood. O caso dele só deixa claro como funciona o sexismo e como ele não apenas gera crimes de violência sexual como também os apoia.

O fato de esse problema social ser tão amplo e significar uma grande perda nas liberdades de meninas e de mulheres torna ainda mais assustador que ele seja tão invisível. Weinstein não é um caso isolado, mas sim, uma das muitas provas de que “as mulheres já dizem isso há muito tempo”.

Bill Cosby

Ainda segundo o The New York Times, “dezenas de ex e atuais funcionários do senhor Weinstein, de assistentes a executivos de topo, disseram que sabiam do comportamento impróprio enquanto trabalhavam para ele”. Porque é que ficaram calados? Tal como no escândalo semelhante que envolveu Bill Cosby, como o produtor era protegido por aqueles que mandavam em tudo, qualquer história que surgisse era atirada para debaixo do tapete. E, quando as coisas não paravam por aí, resolviam-se com dinheiro: Weinstein pagava para que as histórias não fossem divulgadas.

O que quero dizer com tudo isso é, que para as mulheres, o debate sobre sexismo é acordar todo dia e constatar que o conhecimento geral sobre o tema e suas consequências praticamente não mudou. “Sexismo? Isso ainda existe?” Isso é frustrante e muito distante do glamour das histórias contadas nos longas hollywoodianos.

O machismo cotidiano não significa que todo homem é um potencial agressor sexual, mas que o nosso dia- a – dia é marcado pelo pensamento e por ações sexistas– Sexismo é como poluição do ar: alguns locais e pessoas são mais atingidos do que outros, mas, no fim das contas, isso atinge a todos nós. A violência sexual nasce de uma sociedade sexualizada, que não acredita nas mulheres, coloca a culpa na vítima e define masculinidade por meio da humilhação de meninas e mulheres.

Se queremos realmente prevenir a violência sexual, temos de compreender essas ações dentro do nosso contexto social e analisar o terreno fértil no qual o sexismo pode ser semeado de maneira tão fácil. Esterótipos sexuais prejudicam a todos nós, mesmo que de maneiras diferentes. Nisso se incluem também os papéis sociais, impostos nas crianças ainda pequenas, que fomentam disparidades e o discurso de que “garotos são assim, mesmo”, ao invés de explicar aos garotos que eles nem mesmo precisam ser assim.

O caso Harvey Weinstein não é único, nem isolado. Ele é decorrência de uma sociedade sexualizada, na qual sexismo e violência sexual são parte do cotidiano, e por incrível que pareça, aparentemente banalizadas e invisíveis. Para concluir, finalizo com uma recente declaração de Jane Fonda sobre o caso; uma declaração que sim, é um tanto quanto covarde, mas acontece com a maioria das mulheres. Eu me pergunto: até quando?

“Isso não é um caso extremamente raro em Hollywood. É tão comum quanto em cada país do mundo, em todos setores, como nos negócios, no governo. É o padrão de comportamento de muitos e muitos homens, é algo epidêmico. E quando eles são famosos e poderosos como Harvey, esses casos são comentados […]. Por isso é muito importante que essas mulheres tenham sido corajosas o bastante para se exporem agora. Queria ter dito antes, mas não aconteceu comigo, eu não queria expô-lo”.

“Eu admito que deveria ter sido mais corajosa”.

 

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