Um troca-troca entre mídias.

As adaptações são, possivelmente, as maiores fontes de inspiração cinematográfica de todos os tempos. Não é à toa que temos uma categoria do Oscar para o Melhor Roteiro Adaptado. A indústria de filmes Hollywoodiana e mundial vem, ao longo dos seus 120 anos, trazendo às telas histórias e personagens de livros, poemas, quadrinhos, videogames e até canções.

Entretanto, as adaptações também são um dos temas mais discutidos, e temidos, entre os fãs dessas várias mídias. Quem nunca ficou sabendo que seu quadrinho favorito viraria um filme e pensou: “Não sei se choro ou comemoro”? O termo “adaptação” sempre causa bastante conflito, então, para iniciar um debate sobre este tema, vamos começar definindo a palavra:

  1. A definição do dicionário Michaelis de Língua Portuguesa é: “…resultado da modificação de uma obra para outro veículo de comunicação”. Muita atenção para a palavra “modificação”. Em geral, os fãs esperam ver exatamente o que leram, ou jogaram, transcritos para as telas do cinema. Contudo, transferir uma obra “ao pé da letra” de uma mídia para outra é, normalmente, um dos grandes motivos das más adaptações.
  2. A definição das escolas de cinema para a “Adaptação de filmes” é: “…a transferência de um trabalho escrito, em parte ou como um todo, para uma película.”

Ou seja, por mais que o fã dentro de nós deseje 100% de fidelidade é muito importante levar em consideração que nem tudo que funciona em um tipo de mídia irá funcionar em outra, por isso é preciso adaptar o conteúdo, para que a história, e mais importante o sentimento daquela obra, também sejam traduzidos para o cinema.

Alguns trabalhos são fáceis de adaptar, principalmente por seu conteúdo ser mais focado na trama, o que torna a transição para as telas mais simples, pois pode-se mostrar diretamente a história. Sagas como Harry Potter e O homem que não amava as mulheres (título absurdo, mas não é esse o tópico) permitiram adaptações bastante fiéis ao texto original.

Outras obras exigem um pouco mais de liberdade, por exemplo O Paciente Inglês. O livro narra a história de quatro personagens principais com muitos pulos na linha do tempo. Contar essa história em uma janela de 120 minutos seria confuso e superficial, por isso a produção optou por reduzir o foco de três personagens  para um, e focar na trajetória do personagem do título.

E, por  último temos aquelas narrativas quê que os roteiristas leram e se inspiraram para criar filmes que quase não se relacionam com a obra original. Elas serviram apenas para criar a fagulha inicial de uma produção e a referência para por aí. Como é o caso do filme As Patricinhas de Beverly Hills, levemente inspirado no romance Emma, da Jane Austen.

Mas o quê exatamente define uma boa adaptação, e quais elementos podem afundá-la?

  1. Fidelidade ao material original em termos de enredo, tema, tom etc. Uma adaptação, para ser nomeada como tal, precisa possuir pelo menos os elementos essenciais da obra original. Uma alteração de uma parte chave é o segredo para criar uma má adaptação. Como é o caso do filme A Letra Escarlate, a protagonista do livro possui uma personalidade forte, corajosa e desafiante para os padrões culturais da época em que se passa o conto. No entanto, a produção cinematográfica destituiu a personagem de suas características principais para torná-la mais uma donzela indefesa que serve de objeto romântico. Essa é uma alteração elemental da narrativa que destrói a expectativa da audiência.
  2. Independência do material original. Apesar de parecer contraditório com o ponto acima é necessária também uma liberdade criativa para adaptar uma mídia para outra. Poucas obras possuem a fluidez e elementos que permitem uma transcrição 100% fiel. Um exemplo de boa adaptação com grandes alterações é o filme Jurassic Park. Enquanto o livro tem tempo para discorrer sobre a filosofia e matemática aplicada do projeto, o filme, por outro lado se foca no espetáculo e na ação do projeto científico. É a mesma história, com muitos dos mesmo personagens e mesmos acontecimentos, mas sendo contada de dois pontos de vista diferentes.
  3. Respeitar e aceitar a diferença de mídias. Essa máxima vale tanto para os criadores quanto para os espectadores. É muito difícil para um fã aceitar que algo foi alterado em sua preciosa obra. Entretanto, é preciso estar de mente aberta para entender que, algumas vezes, teremos que expandir a história, outras vezes reduzi-la e também adaptá-la a novos contextos sociais, históricos, etc. Por exemplo, os quadrinhos originais do X-men foram escritos nas décadas de 60, 70 e 80, seus personagens utilizavam disquetes, telefones públicos e calças pantalonas. Estes elementos não se traduziriam bem para as telas e para as expectativas do público da série, eles pareceriam caricatos.

A literatura está limitada ao que o autor pode escrever e o leitor pode imaginar. E este é um dos maiores obstáculos das adaptações, pois cada leitor irá imaginar algo diferente, por mais precisa que a descrição seja, e criar suas próprias expectativas com relação ao resultado. Um exemplo recente deste problema foi a produção teatral da continuação da saga Harry Potter. A seleção de uma atriz negra para o papel de Hermione Granger foi muito criticada pelo público que esperava uma personagem branca. Apesar da caracterização original do livro não incluir a cor da pele (“Tinha um tom de voz mandão, os cabelos castanhos muito cheios e os dentes da frente meio grandes.”) os expectadores a imaginaram branca e foram reforçados pela escolha da atriz Emma Watson para papel nos cinemas.

Em resumo, uma boa adaptação é composta por dois lados: um com uma equipe de criação que respeita a obra original, sabe quais elementos tornam aquela história marcante e sabem como transportá-los para outra mídia. Do outro lado temos o público que também precisa entender que a adaptação não é uma transcrição exata da narrativa original e que modificações serão necessárias. O teste para uma boa adaptação é ser uma recordação sem ser uma imitação, ao invés de ser uma cópia, a adaptação evoca e amplifica a experiência original introduzindo suas próprias qualidades que ajudam a ampliar a sensação da criação.

Mas e aí, qual sua adaptação favorita? Ou a mais odiada? Deixa nos comentários para nós discutirmos.

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