When I offered you love,/ it was never enough/ And I gave you faith/ until I had none left/ But now I see you/ for what you are/ Not the prince of peace,/ just the king of slaves

Sinopse: “O relacionamento de um casal, é testado quando convidados inesperados chegam em sua casa, interrompendo sua convivência tranquila.

Apesar de ser cultuado por uma série fãs como um diretor competente e sério, Aronofsky também é considerado, por muitos, um pretensioso nato. De acordo com essa segunda parcela, o diretor mais se apoiaria na competência dos seus espectadores em tirar leite de pedra no que diz respeito à interpretação de seus filmes do que no seu talento.

O que ninguém pode dizer é que Aronofsky não seja um provocador. A maior parte de seus filmes trazem à tona calorosos debates, o que é sempre um aspecto positivo. Arte (e aqui não na semântica pretensiosa) deve gerar debate, inquietação e reflexões em seu público.

Cisne Negro já é um filme claustrofóbico e angustiante. A paranoia da Natalie Portman caminha em um crescendo constante que efetivamente nos contagia. Infelizmente o longa termina logo que a sensação fica “insuportável”, e se essa sensação durasse ainda mais uns 10 minutos, esse certamente seria o filme mais dolorido da história do cinema blockbuster.

Com o lançamento de Noé, pairou no ar uma sensação de declínio, já que este não trouxe absolutamente nenhum tema inquietante a ser debatido. Por isso que Mãe! surpreende tanto: não tinha como esperar o que estava por vir.

Efetivamente, o marketing do filme trouxe algo muito distante do produto final visto nas telonas. Durante a divulgação dos trailers muito se discutiu que o filme apresentava uma atmosfera psicológica na linha de Corra! (um dos grandes sucessos desse ano), seguindo a linha do “terror competente” dos últimos tempos, representados por filmes como A Bruxa, Babadook, Boa Noite Mamãe, Corrente do Mal e outros.

Esse não é a linha de Mãe!.

mãe

Apesar de ser categorizado como um filme de terror, Mãe! é muito maior. Ele aterroriza sim, pelos temas que propõe. Todavia, reduzi-lo a um “filme de terror” seria simplificar a compreensão em tantos níveis que não faria jus à pretensão do diretor.

Então aqui contamos com terror (sim), mas também drama familiar (a relação de mãe (interpretada pela Jennifer Lawrence) e Ele (Javier Bardem) é o retrato de alienação conjugal vivido por tantos casais que vivem uma “solidão conjunta” dada imersão em seus universos particulares), thriller (o que o homem (Ed Harris) e a mulher (Michelle Pfeiffer em uma das melhores atuações recentes da atriz) fazem naquela casa e porque seus parentes não param de surgir?) e filme catástrofe (“como?”, você deve estar se perguntando… bem, somente assistindo para compreender). Trata-se de um trabalho (para o bem e para o mal) relativamente multifacetado.

Aliás, sobre o nome dos personagens, caso tenham estranhado a grafia (substantivos comuns iniciados por letra minúscula, com a exceção de um), não se preocupem. É assim que os personagens são creditados e isso, inclusive, é uma pista importantíssima para se compreender alguns dos contextos.

A linha narrativa aqui presente pode soar negativamente etérea para alguns. Isso ocorre porque Aronofsky trata os eventos com a mesma dinâmica de um pesadelo, sendo comum saltos temporais inesperados e  ausência de lógica entre os eventos. Inclusive o fato de mãe ser constante ignorada por todos à sua volta é justamente uma das sensações que experimentamos diversas vezes em nossos pesadelos.

Dos textos e contextos de Mãe! 

ATENÇÃO: ESSE TÓPICO PODE CONTER MENÇÕES AO FILME QUE ESTRAGARIA A EXPERIÊNCIA DE QUEM TEM SE MANTIDO “SEM SPOILERS” ATÉ AQUI. CASO ISSO TE INCOMODE, PULE PARA O PRÓXIMO TÓPICO – “Tecnicamente…

O roteiro, escrito também pelo diretor, apresenta uma série de subtextos, sendo alguns dos mais evidentes o bíblico-histórico (deus, suas representações e sua influência no transcurso da história), as relações conjugais alienadas e o vilipendio à mãe-natureza.

Sob o ponto de vista bíblico, é engraçado como muita gente teve a percepção que o personagem de Bardem seria uma figura onipotente, responsável por dar vida e guiar os humanos pelas suas palavras. O que pouca gente mencionou é o quão cruel seria esse “ser” retratado. “Você não me ama. O que você ama é o amor que tenho por você” é dito por um dos personagens em um momento chave da trama, denunciando a faceta egocêntrica de Ele.

Não deixa de ser impressionante a vênia que as pessoas estão apresentando em adjetivar esse esse “ser”, absorto em sua inconsequência ególatra e disposto a partir o firmamento em mil para consolidar o culto à sua pessoa. Tal qual como nas correntes mais influentes das ditas “religiões ocidentais”, Ele é um ser de toda glória pronto para te levar às últimas consequências para você demonstrar o seu amor infinito por ele. Não importa se sua alma se despedaçará em cacos, se sua casa queimará, se o mundo será jogado no caos incontrolável, não importa se as pessoas estão ferindo umas às outras, desde que sua fé seja disseminada pelos quatro cantos do planeta e Ele seja adorado.

Apenas para ilustrar como esse ser imaginado por Aronofsky não é tão irreal quanto se supõe, um pároco em Goiás, em 2005, impetrou um habeas corpus para impedir um aborto de um feto que já tinha sido diagnosticado com uma síndrome que impediria a sua vida fora do útero (síndrome de Body Stalk – um conjunto de malformações que inviabilizam a vida fora do útero). A alegação desse padre era que os pais praticariam um homicídio. A mãe, que havia obtido ordem judicial para o procedimento, foi retirada de sua internação já para realizar o procedimento, sendo obrigada a dar a luz ao bebê, 8 dias depois desse evento. Como diagnosticado, a criança não sobreviveu mais do que alguns minutos após o parto. O padre, após alguns anos, foi condenado pela justiça a ressarcir o casal em 60 mil reais por ter causado “sofrimento inútil” à família. Em entrevista por conta desse último evento, esse padre afirmou:

Sofrimento inútil? Nenhum sofrimento é inútil. O sofrimento, se ele for aceito por amor, ele tem valor de redenção” (sic)

A sensação que a maior parte dos leitores devem estar sofrendo agora é exatamente aquela emanada da atuação de Bardem. A esposa, ao lado dele, sofre com o abandono, com o seu relapso, com a sua compulsão em ser reconhecido, amado, idolatrado, ainda que o custo seja a destruição de tudo que foi erguido das cinzas. Ao custo da segurança das pessoas ao seu redor. Ao custo da vida de sua “deusa”. Mas Ele age com a segurança e a serenidade de quem tem certeza que é merecedor desse sofrimento, desse martírio. Ele, justamente, acredita que o sofrimento, quando conduzido pela via do amor, trará redenção e rejúbilo aos seus “leitores”, à sua amada. Não há o menor peso na consciência de assistir dezenas de pessoas morrendo e se sacrificando. Não há arrependimento em ver a carne da sua carne ser dilacerada, se por amor.

E não há relação mais abusiva e desproporcional do que nesse modelo.

A visão penitente que o ocidente tem de figuras divinas supremas, que mistura amor incondicional à voracidade sentimental presente na obrigatoriedade de adoração, é considerada patológica quando vista sob o âmbito da vida privada mundana. O ato de fé nos permite ignorar absurdos em função da busca pela retidão espiritual, nos levando aos mais inexplicáveis e horrendos atos para sua confirmação. Não por um acaso, os astros e estrelas são chamados de ídolos e, também, não por um acaso, fãs devotos à essas pessoas são capazes de absurdos risíveis à tremendos atos inomináveis.

Mais uma vez, não por um acaso, Aronofsky trate Ele como uma celebridade de Hollywood. E é justamente esse um dos pontos fulcrais desse filme, que te choca ao mostrar uma reverência cega à um poeta que espalhou sua palavra de modo que “cada um entendesse da sua maneira“, perdendo o controle de seus atos, o que, nesta vida real, fazemos e fizemos, inúmeras vezes, em prol de nossa espiritualidade.

Em prol de espiritualidade, Aronofsky mostra que somos animais irracionais, e por isso o paralelo deus/astro é tão pertinente.

A busca por adoração torna-o um ser de serena crueldade

E diante de abusividade tão dramática e desproporcional que vem à tona outro questionamento, que é a relação da mãe com Ele. Ela é tratada, em todo o momento, como um anexo. Em diversos outros, em que a histeria começa tomar conta do seu lar, os pedidos insistentes de mãe não são ouvidos ou são relativizados com o questionamento a respeito da sua “posse” da casa.

Ele, em teoria, trata mãe como sua par, sua esposa, sua semelhante. Mas sua compulsão no seu projeto pessoal o impede de enxergar o quão violenta é a sua alienação de sua esposa. E isso se mostra presente em todos os momentos em que ele toma decisões a revelia dela, em que ele circula o seu trabalho concomitantemente para outras pessoas ou quando ele se volta para o circulo de adoração que se ergueu a sua volta e ignora sua família.

Esse tipo de cisma entre casais é tão presente que chega a passar desapercebido por vários espectadores. Em uma geração em que nossas vidas têm relações simbióticas com a web, vivemos nossos projetos pessoais com tanta intensidade (visto que o objetivo supremo da vida torna-se “ser admirado) que fazemos de nossas relações verdadeiras “solidões compartilhadas”. Quando alcançar o estrelato se põe como primeiro plano frente à uma vida vivida em quartos transparentes (seja como o gestor teen mais admirado de sua empresa, o advogado sub 30 mais rankeado no “Advocacia 500”, o famosinho mais “curtido” em redes sociais), a convivência interna assume um lugar de acessoriedade na vida de muitos. As relações se tornam efêmeras e as partes mais dependentes destas acabam enfrentando uma dor incalculável.

Por outro lado, ela se coloca nesse papel de subserviência (justamente levada pelo carisma de seu marido). Então em diversos momentos já estava claro que aquela relação não seria positiva, e a dedicação dela a fim de manter o status quo do lar e ter toda a atenção e amor dele só para si acaba sendo um combustível para todo esse ciclo de solidão presente naquela relação. E esse é um retrato de diversos relacionamentos tóxicos onde uma das partes se anulam. Ela se anula para fazer daquele lar a morada perfeita para o seu companheiro, que vive o seu sonho e acaba impondo essa “solidão compartilhada” para ambos.

Por fim, sobre as figuras que representam e como são tratados pelos demais personagens, podemos dizer que a relação dos protagonistas é uma representação da conjugação do divino com o natural e como os humanos enxergam isso. Apesar da equidade da sua importância, a humanidade tende a tratar o divino como dono e controlador do natural. Tratamos nossos recursos naturais esperando que “sempre haverá mais uvas“, apenas porque acreditamos ocupar um lugar especial nessa galáxia, provido por uma ascendência celestial.

Justamente Aronofsky mostra que não só o equilíbrio desse universo não depende só do divino, como esta própria divindade trata seus admiradores como peças descartáveis que serão repostas tão logo tenha o material necessário para isso. Por outro lado, a mãe natureza está sempre de olho, sempre providenciando que tudo esteja alocado corretamente. Enquanto o divino transita no campo da paixão, a natureza transita no campo da razão (que é efetivamente o embate travado entre essas duas figuras em nosso mundo).

E bem, os adeptos do divino, não surpreendentemente, ignoram a natureza, destroem sua casa. Eles a chamam de vadia, vagabunda, puta (que paralelo, não?), arrancam carne de seus filhos. A atenção apaixonada pelo pressuposto divino faz a humanidade simplesmente ignorar outras vidas. O gênesis nos dá direito sobre os animais, o que justifica o seu holocausto incessante, mesmo que em grandes capitais existam “n” alternativas para “n” necessidades diferentes que não incluem a morte de animais. Nos achamos especiais em decorrência de nossa “origem” divina e ignoramos o mundo real que sangra diante de nossos olhos todos os dias.

O resultado desse irrefreável desequilíbrio é contemplado no longa, e (na linha do que é apontado continuamente por ambientalistas em geral), não soa agradável o que nos espera no fim desse túnel.

Tecnicamente… (APROVEITE – AQUI NÃO HÁ NADA QUE LEMBRE UM SPOILER)

Inversamente proporcional à todas as leituras pretendidas pelo diretor,  com esse longa, tecnicamente o filme não é tudo isso. Quase como um Avatar reverso, Mãe! se sustenta muito mais no roteiro e contexto do que em seu esqueleto.

Como dito acima, o ritmo da trama  emulando um pesadelo é uma solução diferente, digna de apreciação, mas não exatamente tão bem executada. Em diversos momentos a história é construída mais com a boa vontade do espectador do que com os recursos oferecidos pelo diretor/roteirista. Obviamente o cinema mastigado tipicamente nolaniano incomoda, mas não julgo ser justo confundir incompletude com coesão e coerência.

Aliás, considerando os parágrafos anteriores, o desenrolar da história apresenta justamente um discreto distanciamento de coesão e coerência, confirmando a máxima: “quando pretendemos falar de tudo, no fim das contas acabamos não falando direito sobre nada”. Essa é uma regra artística importante que Aronofsky não se importou muito em ignorar. Com tantas camadas simultâneas ocorrendo em cena, você pode acabar saindo do cinema não convencido por nenhuma. É como se o diretor suspeitasse que esse é o seu último longa e tentasse tratar tudo de uma vez para não perder a chance.

A câmera, constantemente na altura dos olhos de Lawrence, ajuda-nos a criar empatia pela sua situação. Quase sempre os fatos são apresentados por uma visão estabelecida na altura do seu rosto ou através de seus olhos, justamente para sentirmos todo o mar de sentimentos que a afoga. A ausência de Ele, a invasão das pessoas, o fato de não ouvirem as coisas que ela pede, é tudo feito para que o espectador sinta o que ela está sentindo.

O clima de tensão se mistura ao sentimento de ansiedade graças à histeria crescente. No começo é comum ficarmos presos na cadeira aguardando algum jumpscare, mas no final estamos só desejando que tudo aquilo acabe (no bom sentido, claro), já que fica insuportável testemunhar a progressão dos eventos como nos é apresentado.

Bardem convence como um marido absorto em seu próprio universo, sendo o ponto “confirmador” de cada novo cenário surgido. Lawrence se esforça um bocado para transmitir a urgência que o senso de sobrevivência e a falta de controle da situação pede, mas não se sai tão bem quantos outros nomes poderiam se sair. Nada que chegue a incomodar. Harris cumpre o que veio para cumprir, já que nada de efetivamente grandioso é exigido dele, enquanto Pfeiffer acaba carregando a importância dos dois nas costas, já que é ela o principal “agente do caos” daquela situação: é nas suas ações, na sua curiosidade, na sua insubordinação e na sua audácia que os eventos se catalizam, sendo praticamente ela que “causa” o filme acontecer.

Pfeiffer sendo o agente modificador da casa

Poor fiiiim…

Mãe! tem tudo para ser um filme amplamente debatido e, quem sabe, até participar da rodada de grandes premiações do ano que vem. Apesar de ter uma trama realmente provocadora, instigante e capaz de aprofundar questionamentos que pouco nos propomos a fazer, falta substância para ser um dos melhores do ano. Seus aspectos técnicos o limitam, e por mais que alguns temas encham de água a boca daqueles ávidos por temas viscerais nos grandes cinemas, a lição de casa não observada pelo diretor, envolvendo exatamente esse “fazer cinema” , custará caro na corrida de “melhores do ano”.

Como em um vestibular para uma faculdade pública de medicina, cada décimo é um abismo e, talvez nas suas próximas incursões, Aronofsky pode ser um pouco mais mãe e um pouco menos Ele.

NOTA FINAL:

 

 

FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Darren Aronofsky
Título Original: mother!
Gênero: Drama/Horror/Mistério/Suspense
Duração: 1h55min
Estrelando: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Domhnall Gleeson, Briain Gleeson
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 21 de setembro (Brasil)

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