Nossa maior derrota foi ter nascido”

Sinopse: Desaparecido por um ano após os eventos da terceira temporada, Bojack Horseman procura se conectar com o passado enquanto seus amigos dão seguimento às suas vidas.

Bojack Horseman ainda é uma incógnita para muitos espectadores do Netflix. Protagonizado pelo personagem homônimo (um cavalo antropomorfizado), a série retrata o vazio existencial cosmopolita vivido, especialmente, pelas estrelas de Hollywoo (sim, sem o “d”, roubado na primeira temporada do seriado).

Apesar da histeria que aparenta existir em um seriado em que o protagonista tem uma “cabeça de cavalo” (talvez sentimento que seja impulsionado pelo número de vezes em que essa característica constou em vídeos do Harlem Shake), o seriado é o oposto de tudo que pode ser associado a ele.

Diferente da revolta impulsiva de South Park, da “domesticação” de Os Simpsons e das provocações juvenis do “universo expandido” de Uma Família da Pesada”, Bojack Horseman sabe onde quer chegar e o que pretende fazer quando alcançar o seu objetivo, retratando  o estilo de vida americano e todo o vazio que isso acarreta aos seus moradores, isso com um bom humor pontual e visceral. Provavelmente depois que os seriados da Fox perderam o seu caráter efetivamente subversivo, o terreno da animação adulta americana foi preenchido por programações de nicho, com um pequeno público fiel, talvez, ao Adult Swim (canal que revelou o consagrado Rick and Morty).

Nos últimos anos a série retratou os esforços de Bojack para retornar aos holofotes, de modo que os arcos tinham como fio condutor o desenvolvimento dos projetos do protagonista. Então o que essa quarta temporada realmente apresenta de especial é uma viagem mais intimista aos sentimentos e da própria origem do ator (o que fora apenas mencionado nas temporadas anteriores). E como não podia deixar de ser, seus grandes traumas se relacionam, diretamente, com questões familiares, que, por sua vez, tem o seu cume no tratamento destinado às mulheres que compõem sua história.

Enquanto Rick and Morty empreende seus esforços para revelar humanidade em meio aos seus absurdos, Bojack Horseman vai no sentido oposto (os absurdos na simples humanidade). As “capacidades ampliadas” de seus personagens por conta de sua parcela “animal” é apenas um leve toque de criatividade existente no mar denso que são os seus dramas humanos. E, se nas outras temporadas esses sentimentos por vezes esbarravam na condição de “ser mulher em uma comunidade metropolitana”, aqui torna-se quase central, já que é em torno disso que muitas das situações desenvolvidas na temporada irão se debruçar.

Não é só no Brasil que ser mulher é um risco permanente

Longe de se portar como uma pueril “crítica social foda” (o que já tinha sido comprovado quando assuntos como aborto foram retratados nas temporadas anteriores – 3ª Temporada/Episódio 6, “Tat-tat, pum pum“), essa quarta temporada foca na intensa instrumentalização do papel da mulher na sociedade: a mulher personificada no papel de mãe tão somente, a jovem mulher que só deve ser uma debutante admirável para conseguir um marido, a mulher que sofreu violentas intervenções cirúrgicas quando era considerada insubordinada, a esposa que deve solucionar as repercussões de casos extraconjugais do marido… situações essas que refletirão para sempre na história de uma linhagem familiar.

Na psicologia utiliza-se um recurso chamado genograma para compreensão de uma determinada característica de uma pessoa. O genograma, muito semelhante a uma “árvore genealógica“, é um mapa elaborado para descrever relacionamentos, eventos importantes e a dinâmica de uma família ao longo de várias gerações, a fim de se compreender os padrões hereditários e fatores psicológicos que pontuam essas relações e como isso reflete o presente do “paciente”.

Esse é o recurso que ditará a tônica dessa temporada, onde o histórico dos “antepassados femininos” do Bojack resultarão diretamente em quem ele se tornou. E se ele é um adulto narcisista, auto-sabotador e auto-destrutivo, é porque o caminho percorrido pela sua herança hereditária foi tão errático quanto.

O trunfo dos roteiristas da série é aproximar ainda mais o espectador ao protagonista por meio do histórico de sua vó e sua mãe. Embora suas personalidades sejam divergentes, essas serão moldadas pelo machismo e violência social a qual você pode ser submetida só por ser mulher, que torna-se ainda mais aguda quando ela não se apresenta na sua forma semântica usual (por meio da força agressiva), mas sim quando ela é travestida de costume, de boas intenções e de normalidade.

O silenciamento, a agressão médica, a submissão da garota como mercadoria social, a atribuição de espaços obrigatórios, tudo isso causará a destruição das personas dessa mulheres, que poderiam ter sido muito mais do que se tornaram. Inclusive uma das passagens em que uma personagem simplesmente “perde sua alma” e então deixa de ser retratada na série traz uma carga emocional tão densa que foi necessário uma pausa nesse ponto para prosseguir.

O quanto de dor podemos suportar?

Continuamente as mulheres centrais de Bojack Horseman acabam se submetendo aos desvarios dos personagens masculinos (o que pode ser visto pelas relações de Diane Nguyen e da Princesa Carolyn), sendo a exceção a essa regra o comportamento de Todd Chavez, que é justamente o único personagem homem “não-heterossexual” da trama (até então). As repercussões de uma sociedade machista que traveste seus comportamentos absurdos por meio do costume são temas recorrentes da série, que lida com esses pontos sempre sem cair na vala comum (destaque, nessa temporada, para o episódio 5 (“Solidariedade“) que traz a questão  da contínua sensação de insegurança feminina e como isso pode ser considerado pelas instâncias de poder), sendo aqui o ponto especial onde ela se difere de qualquer série de humor americana (animada ou não).

Além do passado da família “Horseman/Sugarman” também somos apresentados aos arcos paralelos, como o surgimento da suposta filha de BojackHollyhock (e mais uma vez passamos pelo ponto de como Bojack trata as mulheres a sua volta com o mesmo apreço que ele trata a si mesmo); a corrida pelo Governo da Califórnia pelo Senhor Peanutbutter (contendo todos os desvarios que a mídia americana adota para documentar essas disputas, com evidente influência da última corrida presidencial); a tentativa de constituição de família da Princesa Carolyn (e aqui uma triste passagem sobre como precisamos apenas de um dias ruim para destruir tudo o que levamos a vida inteira para construir); a alienação cada vez maior de Diane Nguyen que, apesar de ser a personagem mais politicamente firme e engajada da série, não sabe como lidar com um relacionamento que não a contempla e ainda apresenta um desejo implícito por se relacionar com um personagem mil vezes mais tóxico do que o seu atual parceiro.

Apesar de Todd Chavez se fazer presente na maioria esmagadora desses episódios, seu arco não é tão dramático quanto o de seus companheiros, já que o seu maior desenvolvimento se deu mesmo na terceira temporada. É impressionante como o personagem mais simples da série é o que parece ter o maior coração e a melhor visão para tomada de decisões para a vida, desde que não envolva a dele própria. Quem gosta do personagem continuará se sentindo contemplado pela série.

Os recursos áudio-visuais e de design adotados nessa temporada são os mais ousados da série inteira (dada sua quantidade). Não há nada lendário como o episódio “Peixe fora d’água” da Terceira Temporada, mas há incursões em diversos episódios, o que comprova o amadurecimento do seriado e a sua vontade de arriscar (o que, como sempre, não se restringe só aos recursos de animação, mas também ao roteiro, já que nunca somos surpreendidos com soluções óbvias, vide o “ship” principal da série e como ele foi retratado até aqui).

No episódio “Seu estúpido de m***a” utiliza-se um recurso visual para sempre evidenciar como o protagonista se sente e como ele se enxerga, como ele planeja seus próximos passos e como ele se sente quando tudo dá errado. Já o episódio “Viagem no tempo“, que é praticamente uma continuação do dolorido episódio “A casa velha do Sr. Sugarman“, temos diversos recursos utilizados para mostrar a alienação de Beatrice Horseman de uma sociedade que não a interessava, para representação de sua figura materna após os eventos do segundo episódio e  como as memórias dolorosas de seu passado repercutem no presente e devoram sua alma aos poucos. Todas as soluções visuais foram tão bem planejadas e executadas que esse se tornou o episódio mais comentado dessa temporada, e não é para menos.

O Episódio 11 retrata como Beatrice Horseman foi castrada pelo seu pai a vida inteira, um típico homem de bem que vê nos seus familiares somente os instrumentos para aquisição de pontos na corrida de aparências da alta sociedade, culminando com um marido (Butterscotch Horseman) incapaz de lidar com suas próprias derrotas e que atribui à esposa toda a responsabilidade de suas faltas pessoais. Cada memória é uma dor imensurável e cada dor é um passo para distanciamento da alma.

Família Sugarman

Considerando que a série se inicia com o desaparecimento por um ano do protagonista, o que ela tem a dizer é que não importa para onde você vá, sua dor te acompanhará. A dor hereditária gerada pela sua formação familiar te acompanhará. Você poderá se esforçar a vida inteira para ser uma pessoa vitoriosa, mas bastará apenas uma pequena série de eventos destrua quem você é, e se você for forte o suficiente para superar isso, essa mesma vida não poupará esforços em te entregar milhares de motivos para você recolher os cacos dos seus sonhos e optar pelo endurecimento auto-defensivo, o que piorará se você for de uma classe/gênero/raça o qual o mundo decidiu que vai merecer sofrer só por existir. Algumas pessoas podem viver bem, desde que estejam de olhos fechados para os eventos a sua volta e foquem em si mesmas, ou se acabarem aderindo a um estilo de vida simples e despretensioso. Mas, para a maioria não há liberdade ou superação. Pode haver compreensão, pode haver um “tratado de paz” com aquilo que te sufoca, mas nunca uma “formatação” como há nos equipamentos eletrônicos.

E é isso que faz essa série tão especial. Cada derrota humana aqui não é tratada com humor, como “qualidade reversa”. Você não vai usar uma camiseta do Bojack porque acha a irresponsabilidade dele algo “descolado” como a de Homer Simpson. Aqui as falhas são sentidas, são dolorosas. Há humor (e como há), mas também há muito espaço para sentimento e humanidade de verdade.

Bojack Horseman nos passa, sem apelações, que a vida cosmopolita é essencialmente cruel e triste, que nos conduz à uma vida vazia e de sentimentos efêmeros e que o machismo e outros preconceitos, ainda mais quando nas mãos das “pessoas de bem”, são implacáveis na destruição da alma de pessoas efetivamente boas, as tornando cascas vazias e sem esperança.

Mas, apesar de TUDO ISSO, “nos vingamos do destino nos mantendo vivos” já que “a vitória nessa revanche é não ter morrido“.

NOTA FINAL:

 

 

FICHA TÉCNICA

Criação: Raphael Bob-Waksberg
Elenco:
Will Arnett, Aaron Paul, Amy Sedaris
Temporada:

Ano:
 2017
Classificação: 16 anos

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