Evil lurks in his eyes/The clown they call Pennywise/He’ll catch you by surprise/The clown they call Pennywise

Sinopse: “Quando as crianças começam a desaparecer na cidade de Derry, no Maine, as crianças do bairro se unem para atacar Pennywise (Bill Skarsgård), um palhaço malvado, cuja história de assassinato e violência remonta há séculos.

It: A Coisa não podia ter estreado em um momento melhor. Com o reforço de obras como Guardiões da Galáxia e Stranger Things, os anos 80 nunca foram tão cultuados pelo grande público, e o longa metragem se aproveita disso. Embora o livro tenha tons mais fundamentados no drama ou na obscuridade, nas telonas temos um sentimento mais aventuresco exaltado, justamente com o fito de se alinhar melhor com o seriado homenagem ao “mestre do terror” Stephen King (que obviamente deve dividir esse posto com outros mestres com Edgar Allan Poe, H. P. Lovercraft e outros gênios do gênero).

O benefício do “suporte físico” é mola propulsora do sucesso que vem atingindo: apesar de Stranger Things estar em alta, esta é uma abordagem um tanto “inexplorada” nas telonas. Conforme uma de nossas matérias anteriores, o cinema de horror está repleto de clichês que levam ao dinheiro fácil. Impressionar o público com jumpscares ou com horror porn é um jeito fácil de fincar seu nome no “horror”. Misturar inocência juvenil e construção de relações era algo mais restrito aos livros (inclusive do próprio King) e de séries televisivas.

O buzz gerado pelo longa é irrefreável: entrem em qualquer fórum de discussões de cultura pop ou cinema e será possível ver que o público está maravilhado com o que assistiu, o que certamente repercutirá na arrecadação do longa e eventuais campanhas para premiações (o Pennywise de Bill Skarsgård certamente pode entrar no páreo do circuito de premiações 2018).

O filme trata de uma cidade fictícia do interior americano que, curiosamente, apresenta uma taxa alta de desaparecimentos de adultos e ainda mais expressivo quando se trata de crianças. Derry é uma cidade opressiva e traz o que há de pior em uma comunidade: preconceito, agressão, abuso sexual. As crianças locais são vitimadas e oprimidas por uma comunidade adulta que parece não realizar esse ambiente tóxico o qual contribuem para construção e manutenção.

No meio disso tudo temos o Clube dos Otários: sete adolescentes que se reúnem para conseguirem sobreviver nesse cenário. Qualquer semelhança com Conta Comigo, Clube dos Cinco, Stranger Things (olha aí de novo) e Super 8 NÃO É mera coincidência, já que essas obras ou beberam ou foram fonte da bibliografia de Stephen King.

Clube dos Otários

Então é mostrado, sob a ótica dos protagonistas, que estranhos e violentos fenômenos sobrenaturais ocorrem na cidade, dando fim a vida das crianças. Uma a uma elas vão desaparecendo e sendo esquecidas. Os membros do Clube dos Otários presenciam esses ameaçadores fenômenos na forma dos seus piores e mais profundos medos. E é por meio da exploração desse medo que “A Coisa” (até o momento, no longa, não identificada ou explicada) persegue suas vítimas.

Então o trunfo de It: A Coisa reside justamente na construção desse cenário. Como filme de terror, o lado mais apavorado dos expectadores vêm à tona quando suas memórias de medos infantis são atiçadas por palhaços nefastos e velhas leprosas. Não há como não se identificar com essas alucinações que muitos de nós tivemos na infância.

Por outro lado, esse medo é quebrado pela humanidade infanto-juvenil em que as relações são colocadas. Essa humanidade é carente no gênero e aqui o Argentino Andrés Muschietti não economiza nessa construção: são usados quase 60 minutos nessa fita só para que você possa se importar com essas amizades.

Além das amizades que você se empatiza, há o aspecto de serem adolescentes pós-púberes enfrentando essas situações. Você não quer que eles morram, então a tensão pela sobrevivência deles acaba se acentuando em qualquer momento que a vida deles são ameaçadas.

E na trama, além do terror sobrenatural, temos uma opressão humana muito agressiva: como citado acima, abusadores sexuais, pais que ameaçam a vida dos filhos, que abandonam a esperança de sua sobrevivência ou colegas com práticas de bullying que vão muito além das violentas, circundam nossos personagens, que reagem com uma “inocência” ainda mais “encantadora”. Essa questão é fundamental para o clima que conquistou o público de assalto: a sensação de uma história inocente inserida em um ambiente absolutamente insalubre.

Destaque para a atuação de Finn Wolfhard, aqui um Richie profundamente engraçado e carismático. Não conversei com uma pessoa que ainda não esteja apaixonada pela atuação do rapaz, que se mostrou um ator multidimensional que não se limitou a repetir o seu consagrado Mike.

Outro destaque fica por parte de Sophia Lillis, onde por meio da beleza de sua Beverly denuncia uma constante agressão em forma de abusos e assédios por boa parte da comunidade de Derry. Ninguém se importa com quem ela seja de verdade, já que sua beleza impulsiona a agressão das outras mulheres e o assédio sexual dos homens, ainda que seja uma adolescente pós púbere (refletindo, exatamente, a misoginia enfrentada por diversas garotas pelo mundo, que são obrigadas a encarar um verdadeiro exercício de sobrevivência em meio a uma sociedade que definitivamente não a reconhece como indivíduo, mas sim como objeto, realidade que tem sua gravidade atenuada se pensarmos que ela se põe diante dessas adolescentes segundos após a conclusão de sua infância, ainda que muitos adultos tampem o Sol com a peneira e neguem essa realidade). Bervely só encontra alento dentro do Clube dos Otários (o que de novo é um paralelo com nossa sociedade, afinal, quem “milita” pelo fim das desigualdades misóginas costuma justamente ser tachado com essa pecha), lugar onde ela pode demonstrar tudo que pode ser, sendo uma das integrantes mais corajosas e carismáticas do grupo.

O Pennywise de Bill Skarsgård é algo digno de nota. Nos poucos momentos em que sua atuação não é prejudicada (sim, você não leu errado) pelo CGI, podemos ver que o ator realmente se empenhou de maneira admirável ao papel, o que vai desde os seus trejeitos, feições, vocalização, caracterização (seus olhos que olham para dois lugares ao mesmo tempo, sua saliva e seus dentes de coelho). Realmente ele passa o susto que visa passar e acredito ser bem capaz do ator cravar sua fama com esse papel e com a vindoura continuação.

Pennywise is here

Falando em continuação, It: A Coisa foi dividido em duas partes. Diferente do livro, os acontecimentos não ocorrem intercalados por flashbacks, mas sim foram ordenados de maneira cronológica. Não acredito que a escolha tenha prejudicado em nada a apreciação do longa, que sempre defendo que deve se sustentar pelas suas próprias pernas sem ter qualquer “débito” com o material original (o único dever do cinema é respeitar o original e nunca ofender sua essência).

TODAVIA, falando em original, há um erro que não pode passar batido (e que infelizmente não vi noticiado em lugar algum): o livro original se passa na década de 50, momento políticos dos EUA em que os negros passavam o seu pior momento de aceitação social do século XX. No pós-guerra acirrou-se as questões dos lugares dos ônibus, da separação dos banheiros, dos incêndios criminosos e da separação das escolas, o que gerou heróis combativos como Martin Luther King e Malcolm X.

Ocorre que o filme transpõe esse cenário para a história de Mike Hanlon (aqui interpretado por Chosen Jacobs) sem as devidas adaptações para os cenários raciais dos anos 80. Há diversas ansiedades e medos que o personagem e sua família expõe, traumas e agressões que não exatamente condizem com o momento dos anos 80. Isso ocorre pela falta de comprometimento com a contextualização histórica em que o filme ocorre. Para muitos isso não causará impacto negativo, mas para quem conhece um pouco da história americana, isso incomoda um bocado e, tendo em vista que esse background é importante para o cenário de Mike Hanlon, considero isso um ponto negativo.

Outro ponto negativo reside na construção do medo. Eu não acho que o filme deva ter o menor compromisso com a construção do medo tal qual ostensivamente fora utilizado no cinema de terror dos últimos anos. Pelo contrário, eu celebro a ousadia em filmes que se arriscam (como A Bruxa e Corra!”).

Ocorre que It: A Coisa não observa bem a distribuição do seu tempo e acaba pecando na hora da construção do horror, acarretando na utilização do recurso mais sem vergonha para se assustar o público: o malafamado jumpscare.

Quando você não pavimenta o caminho do terror nos pequenos detalhes, de modo que ele por si só devore a mente do espectador, você se vê obrigado a forçar o recurso por meio de soluções tecnológicas: explosão de áudio e closes fechadíssimos no vilão e câmera incompreensível. Isso não precisaria ocorrer se o Muschietti tivesse observado melhor o seu tempo e eventualmente deixado de lado certas decisões (mostrar de maneira episódica “A Coisa” aparecendo para cada personagem me parece uma solução equivocada por não só ficar repetitiva, como também por dar um aspecto de “chefe de fase” para cada um que considero brega e desnecessário para um filme que se presta a trazer uma experiência nova ao público).

Aterrorizante, opressivo, encantador e criativo pela maior parte do seu tempo, It: A Coisa é um filme que conquistou o público, apesar de não ser perfeito (muito longe disso). Apesar de ser apontado como uma das grandes surpresas do ano, há muita coisa melhor rodando entre nós, o que não impede o filme de ser tratado com o carinho que vem recebendo. Vale o ingresso, vale o susto e vale o abraço que você poderá dar naquele seu amigo de infância assim que você sair da sala.

NOTA FINAL:

 

 

FICHA TÉCNICA
Direção: Andrés Muschietti
Roteiro: Andrés Muschietti, Gary Dauberman, Cary Fukunaga, Chase Palmer e David Kajganich
Título Original: It
Gênero: Terror Sobrenatural/Drama
Duração: 2h15min
Estrelando: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher e Finn Wolfhard.
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 07 de setembro (Brasil)

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