Um novo clássico do cinema nacional?

“No Brasil dos anos 1980, Augusto Mendes é um ator frustrado que faz sucesso em pornochanchadas, mas sonha com os holofotes. Sua grande chance surge ao se tornar “Bingo”, palhaço apresentador de um programa infantil na televisão. Graças ao jeito irreverente de Augusto, Bingo se torna um sucesso absoluto. Mas uma cláusula no contrato não permite que ele revele quem é o homem por trás da máscara, tornando-o o anônimo mais famoso do Brasil. Livremente inspirado na história real de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa do SBT.”

É seguro afirmar que os 80 anos foi a década do exagero em relação a quase tudo. Bingo: O Rei das Manhãs consegue transpor isso de forma quase impecável. Daniel Rezende, que trabalhou como montador de produções como Tropa de Elite e o recente RoboCop (2014), consegue se provar um promissor diretor, trazendo para o seu filme a obra biográfica de Arlindo Barreto, que por questões de direitos autorais e afim de criar mais liberdade pra história, mudou o nome de muitos personagens e emissoras, o que funciona sem descaracterizar nada.

Daniel nos mostra uma visão e construção bem orquestrada do tom e a estrutura narrativa de longas biográficos, do início da ambição ao declínio e redenção do protagonista, que na trama é vivido por Vladimir Brichta. Por sua vez, o mesmo desempenha de forma bem particular e envolvente as várias facetas de Augusto Mendes/Bingo. Sua transformação com o sucesso e decadência profissional e pessoal. O resto da direção de elenco é muito bem construída, com destaque para Leandra Leal, que faz o contra ponto do personagem de Vladimir ao Augusto Madeira, jogado como alívio cômico em alguns momentos.

A trilha sonora, que conta com faixas como Conga, Conga, Conga da Gretchen, Titãs, Nana, Dr. Silvana & Cia. adicionam um requinte especial ao excelente design de produção e fotografia (que ficou a cargo de Lula Carvalho), que se preocupa com os mínimos detalhes quando se trata de recriar elementos da época, que vão desde vídeo cassete a comercial de brinquedos da década de 80.

Outra elegância técnica que agrega a trama é a palheta de cores usada para dar um peso a discussão sobre fama e reconhecimento na vida do protagonista, alternando entre cores mais vivas nas cenas com Bingo e um pouco mais soturno nos momentos com Augusto.

O roteiro escrito por Luiz Bolognsei trás consigo uma leva de ótimo diálogos, equilibrando bem o senso de tragédia e ascensão, trabalhando de maneira envolvente a relação de Augusto com seu filho. Daniel, por sua vez, sabe o material que tem em mãos e dá tempo na tela para tudo se desenvolver da melhor forma.

Bingo: O Rei das Manhãs se prova uma excelente obra do nosso cinema e evoca surpreendentemente bem como era a loucura e magia dos anos 80. Um prato cheio pra quem costuma dizer que naquela época tudo era melhor e pra quem não a viveu.

NOTA FINAL:

FICHA TÉCNICA

Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Título Original: Bingo: O Rei das Manhãs
Gênero: Biografia, drama
Duração: 113 min
Classificação Indicativa: 16 anos
Elenco: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Augusto Madeira, Ana Lúcia Torre, Cauã Martins, Domingos Montagner, Emanuelle Araújo, Pedro Biel
Lançamento: 2017

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