Crer ou não crer? Eis a questão

Recentemente, assistindo Dunkirk, uma pergunta se formulou na minha cabeça durante a 1h 46min de filme: porque estou assistindo isso? Não me refiro aqui aos méritos do roteiro, atuação, fotografia, etc. mas sim a um tema essencial para a sétima arte, literatura, teatro e videogames: a suspensão da descrença. Durante o interminável vôo sem combustível e com direito a perseguições do personagem Farrier (Tom Hardy) me perguntei se a cena foi pensada para passar credibilidade, pois, para mim, foi impossível acreditar no que os escritores, diretores e atores tentaram comunicar.
A suspensão da descrença é um termo descrito pelo poeta e filósofo inglês Samuel Taylor Coleridge em sua obra Biographia Literária, de 1817, e que, posteriormente, se tornou a pedra fundamental das narrativas. A expressão significa o desejo do público de suspender suas faculdades críticas e acreditar no inacreditável, em outras palavras, é quando jogamos a lógica pela janela pelo prazer da história sendo contada.
Uma narrativa tem o poder de envolver a audiência e fazê-la manter-se compenetrada na história não importando o quão fantasiosa a mesma possa ser. A forma como um universo é apresentado, as falas e ações dos personagens podem manter a história crível ou causar uma ruptura no véu da imaginação do público.
Filmes como Transformes e Velozes e Furiosos são exemplos que mostram uma falha na capacidade de suspender a descrença. É razoável aceitar a existência de um novo mundo, que possui novas regras com as quais não estamos acostumados, o problema se encontra quando elementos deste mundo destoam de suas próprias regras, isso causa estranheza e desconforto pois não harmonizam com o resto da obra, levando o público a voltar para a realidade e consequentemente encher as redes sociais que reclamações sobre o filme. A partir do momento que público pensa: “Ah fala sério” a história perde seu poder sobre ele e o mundo criado na tela se despedaçou.
É muito importante ressaltar que não somente a narrativa pode acabar com a suspensão da descrença. Efeitos especiais de baixa qualidade, má atuação, uma trilha sonora que não acompanha o ritmo do longa podem ter o mesmo efeito que uma má narrativa. Existem um contrato informal entre filme e audiência quando esta se dispõe a comprar um ingresso de cinema. Nesse contrato o público aceita suspender sua descrença e o mesmo precisa contar sua história de forma consistente dentro dos parâmetros que estabeleceu. Se o Indiana Jones criasse asas e saísse voando no meio do filme os expectadores se sentiriam enganados e revoltados. Em nenhum momento, é comentada a possibilidade de qualquer personagem voar e ninguém vai acreditar quando isso acontecer.
Exemplos de bom e mal uso de elementos de narrativa também podem ser encontrados também nas
animações. Bee Movie – A História de uma Abelhada DreamWorks, estabelece logo no começo do longa que as abelhas são antropomorfas e isso não é um problema. A ruptura acontece quando o protagonista Jerry começa a falar com um humano aos 15 minutos de filme. Nenhum indício sobre esta possibilidade foi dado desde o começo. Quando o comparamos com Pinóquio da Disney, podemos perceber que já no início temos o personagem antropomorfo do Grilo Falante, cantando, lendo, conversando diretamente com a câmera, isso prepara o público para os tipos de ações que podemos esperar deste personagem e da história como um todo, pois passamos a aceitar que se o grilo pode fazer tudo isso o boneco de madeira também pode.

 

Já filmes como Distrito 9 e Show de Truman são excelentes exemplos de como uma boa narrativa, roteiro, cenário e atuação podem tornar críveis ao público qualquer elementos fantasioso. Em nenhum momento questionamos a existência de aliens, pois desde o começo esse fato nos foi apresentado como real e irrefutável.

Existem dois grande mitos relacionados a suspensão da descrença:

  1. O público simplesmente deve acreditar em tudo que for passado na tela, não importa como é apresentado.
  2. Quanto mais você precisa suspender sua descrença mais idiota é o filme, pois uma história bem feita e narrada sempre parece automaticamente plausível sem nenhum esforço do público.
Sagas como Star Wars e Harry Potter nos transportam para os seus universos por uma estrada sem solavancos. A crença no irracional e irreal que eles exigem não é trabalhosa para o público. Os expectadores não param no começo dessas obras e pensam: “Ah tá, pera eu tenho que acreditar que existe magia no mundo para entender/gostar. Tá beleza, entendi. Vai agora conta a história”. A imersão simplesmente acontece, pois filmes como esses foram criados para transportar você para qualquer mundo sem que você perceba. E, ao final deles, você sai desejando que a magia e a força existissem de verdade.
A grande pergunta é: no que você acredita? Quais filmes te transportaram para outro universo e quais foram responsáveis pelo sentimento de vergonha alheia? Deixem nos comentários.

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