Essa semana um novo episódio assolou a comunidade nerd mundial e brasileira. A escalação da atriz Anna Diop para viver a Estelar, personagem presente em diversas formações da superequipe Titãs da DC Comics e parceira do Capuz Vermelho em seu título próprio

O problema imposto por muitos nessa situação seria etnia da atriz, que nasceu no Senegal, oeste da África. Com um tom de pele bem escuro, Anna Diop causou um certo barulho na comunidade, já que a indicação de atores negros para papéis que não sejam de personagens do mundo pop evidentemente negros (e não escondo aqui o meu estranhamento pessoal ao ter que escrever essa frase) causa uma certa movimentação nas convicções pessoais dos “membros” dessa comunidade.

Estelar, todavia, tem um ponto relevante a ser mencionado: A personagem nem terráquea é. Trata-se de uma tamaraniana de pele laranja. Apesar da Warner ainda não ter apresentado nenhum esboço do design imaginado para a personagem, os fãs estão quase certos que a atriz será “tratada” com trabalho de maquiagem e/ou captura de movimentos em CGI (ou captura de atuação, como propagandeou Andy Serkins no seu papel de César em O Planeta dos Macacos: A Guerra).

Temos diversos exemplos de atores que ficaram irreconhecíveis (e ótimos) com um trabalho de maquiagem. Rebecca Romijin (Mística na trilogia original dos X-Men), Heath Ledger (dispensa comentários), Alan Cumming (Noturno em X2: X-Men United) e o oscarizado (não por causa de sua atuação, obviamente) Adewale Akinnuoeye-Agbaje com seu Crocodilo em Esquadrão Suicida comprovam que as produções hollywoodianas realizam verdadeiros milagres de caracterização, e não é de hoje.

Então o que motiva tanta desconfiança na comunidade nerd em relação à atriz? Qual característica sua poderia prejudicar a caracterização de uma personagem que será carregada na maquiagem e no CGI? A capacidade de atuação dela foi contestada? Qual o nível de atuação que uma atriz em um seriado dos Titãs na TV aberta americana deve ter? A princípio, Titãs não me soa como um trabalho que busca um Emmy ou qualquer outra condecoração pela qualidade da dramaturgia.

Podíamos redigir um texto apontando e acusando pessoas em diversos sentidos. Contudo, esse redator não acredita que essa medida seja exatamente produtiva para algum fim. Então, ao invés de discorrer as possíveis implicações da intolerância existente em todos os micro-cosmos de nossa comunidade (e com o meio nerd não podia ser diferente), vamos (humildemente) só jogar no ar algumas reflexões sobre o assunto.

1 – A origem de Koriander, conforme imaginado por Marv Wolfman e George Pérez

Criada em outubro de 1980 na DC Comics Presents #26, o nome “civil” da Estelar é Koriander. Nascida como uma princesa no planeta Tamaran, a heroína foi entregue pela própria irmã, Komand’r (Estrela Negra) como escrava em troca da libertação de Tamaran pelas mãos da Cidadela. Koriander então ficou exilada para salvar o seu planeta. Por um acidente, a princesa acabaria no planeta Terra e encontraria Robin (Dick Grayson nesse caso) e os Jovens Titãs.

Os pais da Estelar foram mortos durante a invasão da Cidadela e a heroína foi usada em experiências para os Psions, por meio de experiências torturantes para medirem a capacidade de absorção da energia solar dos tamaranianos.

No universo DC pós “Ponto de Ignição“, algumas coisas mudaram. Estelar foi vendida pela Komand’r, que tinha apenas 14 anos e era rainha de Tamaran, para manter a paz com a Cidadela. Por conta disso, a heroína sofreu com escravidão, fome, tortura e abusos sexuais. Seus poderes despertaram por conta dos experimentos científicos dolorosos com os Psions. Depois de diversos eventos, Koriander passou a protagonizar histórias com o Capuz Vermelho (Jason Todd). Ou seja, nessa nova origem foi respeitada a construção que Wolfman e Pérez imaginaram para a heroína.

Estelar, como desenhada por Pérez, apresenta traços fenotípicos de afrodescendentes

Não creio que a criação da personagem ocorreu nas mãos de Pérez por um acaso. O desenhista viria, anos mais tarde, a redefinir a Mulher-Maravilha, mediante uma contribuição que reforçaria ainda mais o caráter independente e autônomo da heroína.

Obviamente Pérez não preveu a discussão que seria traçada em 2017, mas é impossível não observar, agora, que a história de Estelar foi vivida de maneira intensa pelos africanos no nosso planeta. O que hoje chamam de grandes navegações não passou de invasão, pirataria, genocídio e sequestro para trabalhos forçados. Komand’r entregou sua irmã nas duas realidades vividas pela Koriander para garantir a sobrevivência do seu povo, exatamente o que teriam ocorrido com os negros sequestrados para os trabalhos forçados que ocorreriam de maneira intensiva nas Américas.

Não bastasse essa linha história muito semelhante com a devastação do continente Africano, a Estelar imaginada por Pérez, como se vê na figura acima, possui cintura “não-tão-afinada”, lábios mais grossos, cabelos mais volumosos, características que não costumam ser alinhadas aos retratos “europeus”.

Então, com todo esse background e essa constituição, acho que pode ser ao menos afirmável que George Pérez não recusaria a representação de sua personagem com traços “africanos”. A história de exploração, sofrimento, libertação e superação se assemelha bastante à história do vitorioso povo africano (que a despeito dos ataques incisivos da Europa e da América do Norte, permanecem resistindo) e a própria representação gráfica da personagem, como imaginada pelo seu criador, se aproxima aos traços de mulheres negras.
Contudo, o próximo ponto pode ser ainda mais provocativo do que esse que vocês acabaram de ler.

2 – Estamos falando de Hollywood, não?

Houve diversas reclamações de muitas pessoas, da qual a atriz não apresentaria a fidelidade necessária para o personagem.

É muito estranho ler esse tipo de afirmação, já que a caracterização da personagem ainda nem fora apresentada, ainda mais em se tratando de uma alien com cabelos que chegam a pegar fogo, com pele em tons de laranja e olhos esmeralda.

Seria como dizer que Adewale Akinnuoeye-Agbaje não se parece com o Crocodilo. Aliás, Agbaje se parece com o Crocodilo?

Algum ator se parece?

CARAMBA! COMO ISSO É POSSÍVEL? NÃO PODE SER REAL ESSA TRANSFORMAÇÃO!

A não ser que o excelentíssimo presidente dos Estados Unidos aceitasse atuar como Estelar, até o momento não se tem conhecimento de seres humanos de pele laranja aptos a atuarem como tamaranianos. Além de Agbaje, tivemos recentemente Mark Ruffalo e Andy Serkins interpretando de maneira muito convincente, respectivamente, Hulk e César (de O Planeta dos Macacos).

Na concorrência da DC temos a assassina intergalática Gamora, interpretada por Zoë Saldaña, uma das atrizes mais bonitas do cenário blockbuster americano. Descendente de porto-riquenhos e dominicanos, a atriz certamente não possui traços europeus. Muitas pessoas não estranham o papel já que a personagem era do terceiro escalão da Marvel Comics até alguém decidir que ela integraria os Guardiões da Galáxia no filme homônimo.

A atriz, com quase 40 anos, fica irreconhecível na maquiagem de Gamora e apresenta uma das caracterizações mais admiradas do cinema pop atual. Hoje, Saldaña coleciona papéis invejados em volta de toda cultura pop, já participado de Star Trek e do universo de James Cameron, o Avatar, que ganhará continuações nos próximos anos.

Algumas pessoas não creem, mas as três são interpretadas PELA MESMA atriz, e ela é NEGRA! Isso não é MÁGICO? Essa galera de Hollywood é DANADA MESMO!

Talvez quem duvide da capacidade de Anna Diop de ser bem caracterizada de maneira convincente na série televisiva que está porvir, não conheça toda essa gama de atores que se tornaram outros personagens graças aos recursos hollywoodianos (seja na captura de atuação, seja na maquiagem física).

Contudo, se essa pessoa não conhece nenhum desses exemplos, porque ela se preocuparia justamente com a Estelar? O mais lógico é que se ela ignorou Avatar, Vingadores, Esquadrão Suicida, Star Trek, Guardiões da Galáxia, O Planeta dos Macacos… é justamente com a caracterização e Titãs que eles irão se importar?

3 – Deus criou seus filhos a sua imagem e semelhança

Bem, não podemos ignorar que quadrinhos sempre foram criados com duas coisas na cabeça: quem o cria e quem o consume, primariamente. Considerando que muitos dos personagens mais admirados dos quadrinhos foram criados em meados do século passado, muitos deles foram criados antes ou durante as discussões pelos direitos civis americanos, cenário que se incendiou a partir de 1960.

Até hoje as discussões raciais americanas são inflamatórias. Alguns dos maiores líderes da luta anti-racista são americanos (Martin Luther King e Malcolm X). Temos um cenário, como em muitos países do mundo, em que uma sociedade erigida sobre o sequestro de africanos acarreta consequências até os dias de hoje, no que diz respeito à distribuição de renda e de oportunidades.

Dentro desse cenário, em que há uma efetiva luta pela sobrevivência e aceitação de uma parcela da sociedade, é meio óbvio que os pontos supérfluos chegasse com mais facilidade às classes com poder aquisitivo mais consistente.

Assim, não é surpresa que os quadrinhos eram feitos de homens brancos para homens brancos.

Como todo o entretenimento pop.

As mulheres e outros personagens foram imaginados sob a ótica de quem produzia, para a ótica de quem imediatamente consumia. Essa barreira passou a ser transposta com o tempo (não por um acaso, ao mesmo tempo em que ocorria o avanço da capacidade econômica das famílias negras) e, mais tarde, esse público passou a ser contemplado.

Isso não ocorreu por maldade dos autores. Não ocorreu porque havia exatamente uma agenda política.

Isso só aconteceu porque era assim que os autores e pessoas se imaginavam naquelas histórias. Eles se viam.

O deus cristão criou seus filhos à sua imagem e semelhança. Os criadores de quadrinhos também reproduziram em seus filhos o que eles tinham por imagem própria… Como eles gostariam de ser. Quais mulheres gostariam de admirar.

Não por um acaso as heroínas apresentam maiôs reveladores e tamanhos estrategicamente avantajados.
Não por um acaso, os heróis eram, na sua maioria, brancos com o estereótipo do “Cepacol”, já que era assim que esses autores queriam ser. Assim que seu público sonhava ser. A participação de um público divergente só ocorreria anos mais tarde.

Então não é inesperado que a maior parte dos personagens da cultura pop sejam brancos. É assim que a humanidade produziu arte durante TODA nossa história. As mudanças desse ideal surgiram apenas recentemente, sendo esta uma discussão absolutamente contemporânea.

Então é claro que haverá “n” personagens identificados como brancos caucasianos… Seus autores, eram… seus leitores no passado também eram. Ocorre que o mundo mudou (ainda bem). Para a própria sobrevivência do negócio, foi necessário a abertura da abrangência do público. Com o tempo, novos autores surgiram e o mercado expandiu.

Expansão de mercado é a coisa mais capitalista que existe. É paradoxal que pessoas conservadoras não admitam a essência mais pura do capital, que é a abrangência à todos os tipos de consumidores para, assim, gerar mais capital.

Mas se a lógica fosse algo pelo qual algumas pessoas tivessem apreço, um texto como esse não seria necessário. Então eu agradeço às pessoas com capacidades questionáveis de entendimento de realidade, por me permitir um exercício extremamente satisfatório como este. =D

4 – Então, depois de tudo isso, qual a alegação da comunidade?

Alguns “fãns” reclamaram que a atriz não é bonita (SIM!).

Outros reclamaram que uma MAQUIAGEM LARANJA TERIA UM EFEITO RUIM EM UMA PELE NEGRA… Em uma indústria que transforma um homem em um monstro crocodilo assassino… Talvez essas pessoas não saibam que Titãs será produzido para a TV. Talvez elas tenham imaginado que seria uma peça de teatro de uma escola municipal brasileira para algum concurso do Raul Gil.

Este redator chegou a ler que a atriz seria velha demais para o papel (Anna Diob tem apenas 28 anos… Saldaña tem 39…) e não refletiria a inocência da personagem (ignorando que Estelar nos Novos 52 chegou a ter relações sexuais com o Arsenal e com o Capuz Vermelho na mesma edição, já que a alien encarava relações sexuais de um modo diferente do que nós humanos encarávamos…

Tanta inocência que a Estelar é personagem recomendada pela associação das senhoras católicas de Connecticut

Talvez esse redator esteja de fato errado e ela seja realmente inocente e nós, com todo nossos julgamentos e aferições, sejamos os verdadeiros maliciosos no que diz respeito à liberdade alheia…

Temos então um sem número de afirmações ora infundadas, ora falaciosas, ora inteiramente descabidas, ora escondendo o que essas pessoas têm como verdadeiro dentro de si… Algo que tão datado que sequer será citado nesse texto… Já que nem merecedor disso essas “convicções” são.

Na verdade acho um movimento absolutamente fantástico. Pessoas outrora conservadoras se importando com os sentimentos de tamaranianos a respeito de como são representados. Como um elenco é levantado sem uma única pessoa laranja?

Como se autoriza uma APROPRIAÇÃO CULTURAL INTERPLANETÁRIA dessas?

Como americanos fazem TAMARANIAN FACE e passam batido?

Estamos em épocas melhores onde pessoas conservadoras finalmente acordam para uma nova consciência e buscam defender o bom senso nas relações com nossos irmãos tamaranianos, há tanto tempo fora de nossas produções audiovisuais.

Acho que depois dessas preocupações, essas pessoas poderiam só pensar um pouquinho nesses cenários para, talvez, dar um crédito para Diop, ao menos até a caracterização inicial ser divulgada.

Ou senão seja hora de iniciarmos esse abaixo assinado exigindo que Trump aceite participar do seriado, já que ele é o único ser humano laranja entre nós.

Em Tamaran ele também ergueu uns muros e talz…

Enquanto isso fico aqui, com minhas preces focadas nos avanços da maquiagem, para que sejamos capazes, um dia, de transformar humanos, talvez, em crocodilos assassinos nos cinemas…

Peraí, que ano estamos mesmo?

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