O Ponto Nerd apresenta abaixo 5 filmes para quem não aguenta mais os velhos jumpscare e explosões de áudio dos filmes de terror.

O gênero de terror e horror é extremamente cativante e rentável. O ser humano é uma criatura perdida na imensidão da existência. Para os que creem em divindades cristãs, há o peso da vida após a morte: “como é o céu?”, “e o inferno?”, “para onde eu vou?”. Para os que não possuem crença alguma, a pressão do desconhecido não deixa de ser implacável: “quando morrer, tudo acaba mesmo?”, “será que eu estou errado?”, “e se houver um inferno e eu for pra lá?”, “e se houver vida extra terrestre e essa vida surgir um dia para nos esmagar, assim como o povo europeu esmagou os americanos?”.

O fato de estarmos imergidos na imensidão do vazio e do inesperado nos gera uma incrível atração rumo ao perverso, desconhecido e inimaginável. Não é a toa que um dos filmes mais importantes para a história do cinema é o Nosferatu, filme alemão de 1922 dirigido por Friedrich Wilhelm Murnau. Esse é um gênero que sempre ocupou um lugar especial nas obras audiovisuais, e isso caminha junto com a nossa ansiedade de compreender o inesperado e o infinito, de criar explicações para a infinidade que nos assola e de dar forma física aos nossos anseios.

Sabendo disso, Hollywood, o maior mercado do cinema mundial, não poupou “modas”… Os slashers em 1980 encheu as telas com sangue derramado por monstros irrefreáveis  com suas ferramentas de morte, caçando adolescentes incautos exalando hormônios. Jason Vorhees, Michael Myers, Leatherface e Freddy Krueger eram todos exemplos de monstros punitivistas preparados para matar adolescentes insolentes, concentrados demais nas suas extravagâncias para cuidar de sua integridade.

Nos anos 90, Wes Craven e sua trupe nos bombardeou com a evolução do slasher. Um pouco mais “pé no chão”, os filmes eram voltados para jovens universitários encarando as penalidades por alguma ação imprudente. Em Pânico, Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, Lenda Urbana temos uma insistente repetição de formula um pouco mais “palatável” para um público 12/14 anos.

Nos anos 2000 foi a vez de adaptarmos os filmes asiáticos. Tal qual um velho fenômeno que ocorreu no western antigo, o ocidente ficou obcecado pelas adaptações dos filmes orientais, visto que os americanos costumam ser um tanto nacionalistas no que diz respeito a sua “pré-disposição” ao cinema “internacional”. Dessa vez O Chamado e O Grito foram os líderes de uma era que tomou nossos cinemas, trazendo uma ligação com o sobrenatural de um jeito que os asiáticos são mais habituados. Junto dessa fase, o torture porn ganharia as telonas com seu grafismo visceral, MUITO sangue e seu esbanjo de violência, sofrimento e tripas, tendo o seu ícone mais proeminente o Jogos Mortais.

Nessa década vivemos uma moda dupla. Os found footages voltaram com todo vapor, dada a expectativa erigida pelo combo A Bruxa de Blair + Atividade Paranormal, e os filmes derivados de Invocação do Mal com suas maldições familiares e bonecos amaldiçoados estão fazendo dinheiro nessa década.

Então, considerando que o cinema de terror é muito pautado nessa rentabilidade (até porque a conta orçamento x faturamento vem resultando em cifras expressivas), uma parte do público mais “cinematograficamente” exigente não consegue “se adaptar” às soluções “mercantis” constantes nesses novos longas. Assim, não é incomum pessoas que simplesmente não conseguem aceitar o cinema “mainstream” de terror, resultando em uma rejeição à filmes como Annabelle, Invocação do Mal ou Atividade Paranormal (as franquias mais “badaladas” nesses últimos anos).

Se você, como este nobre redator, é uma das pessoas que, apesar de amar o desconhecido e o nefasto, não consegue se empolgar com os filmes mais correntes, que abusam das soluções jumpscare e da trilha sonora “explodida”, abaixo seguem 5 indicações do cinema que irão tirar o seu sono e propor uma narrativa ousada e intrigante, para além das soluções fáceis, abalando seu descanso mental, ao menos, pelos próximos dias:

5 – Corrente do Mal

Sinopse: Após um encontro sexual, Jay descobre que seu parceiro lhe passou uma maldição fatal. Agora, a única forma de se curar é a transmitindo para outra pessoa.

Devo asssitir porque: o filme apresenta uma abordagem repleta de subtextos que recompensará o espectador mais atento. A culpabilização da promiscuidade, a separação de classes (os adolescentes suburbanos da classe média nunca desbravaram Detroit por completo), a imprudência tipicamente jovial (inclusive não há quase nenhum adulto em cena) tornam o longa em uma viagem pelos recantos das “condenações urbanas” típicas de cenários cosmopolitas. O horror aqui fica pelo caminhar constante, implacável e sereno das entidades sobrenaturais, em planos abertos que fazem com que o espectador fique vasculhando cada canto da tela em busca de um perigo que chegará, implacável como a própria morte.

4 – Boa noite, mamãe

Sinopse: Uma família vive em uma residência isolada em meio a árvores e plantações de milho. Após dias afastada por conta de cirurgias plásticas, a mãe (Susanne Wuest) volta para casa e não é reconhecida pelos filhos gêmeos.

Devo assistir porque: não há nada mais ameaçador do que não saber de onde vem o perigo. Não há nada pior do que ver a conexão mãe e filho retorcida e transformada num sádico jogo de tormento. Os traumas que acarretam alienações em nossa mente são explorados aqui de maneira opressora e claustrofóbica. 90 minutos de pura apreensão em um filme basicamente com 3 atores.

3 – Um crime americano

Sinopse: Baseado em fatos, em 1965, Sylvia (Ellen Page) e Jennie Likens (Hayley McFarland) são irmãs deixadas na casa de Gertrude Baniszweski (Catherine Keener) por uma longa temporada, já que seus pais trabalham em um circo. Gertrude é uma mãe solteira com 7 crianças e que, devido a dificuldades financeiras, aceita cuidar das garotas. Só que ela não esperava o quanto presença delas afetaria sua natureza instável.

Devo assistir esse DRAMA porque: nem sempre o terror é suficiente para termos contato com os cantos mais escuros da natureza humana. Um crime americano aborda a história de duas meninas abusadas de maneira visceral por uma senhora cristã de meia idade, contando sua história de maneira muito intensa. Em um tom absolutamente claustrofóbico, a tensão e a dor do espectador, a medida em que o filme vai acontecendo, vai sendo elevada a um nível em que se torna um verdadeiro desafio ser acompanhado até o fim, até pelas reflexões que passam da paternidade irresponsável aos danos que a cultura capital-punitivista das morais cristãs americanas causam nas pessoas predispostas à perda de controle. A inocência das vítimas, em contraste com o excesso dos castigos, agrava toda a sensação de peso intenso do filme. Recomendado para quem busca experiências intensas no que se refere à obscuridade humana, mas não recomendado para pessoas sensíveis ou que tenham gatilhos com assuntos congêneres.

2 – Corra!

Sinopse: Chris (Daniel KaluuyaBlack Mirror) é um jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison WilliamsGirls). A princípio, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro, mas, com o tempo, Chris percebe que a família esconde algo muito mais perturbador.

Devo assistir porque: ambos os atores são iniciantes no cinema, mas lembrados pelo público pelas suas épicas participações nos seriados citados, reforçando aqui o seu enorme potencial. Jordan Peele é um diretor de comédia que realiza um impecável trabalho de direção e roteiro, sabendo como quebrar as expectativas do público e como elevar a tensão sem usar os recursos manjados do gênero. Como o bom terror não só assusta, mas nos faz pensar sob um aspecto obscuro que nos circunda, Corra! é um interessante desabafo sobre o racismo. Fugindo do lugar comum, o filme mira justamente naqueles que se colocam ao lado dos negros sob a ótica do “caricato”, não sob uma ótica de irmandade (típico caso de quem realiza “caridade” como obrigação social, não como sinceridade de conduta). Com diversas fugas dos padrões do gênero, temos aqui um dos grandes concorrentes a melhor filme de 2017.

1 – A Bruxa

Sinopse: Nova Inglaterra, década de 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com suas cinco crianças em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, sofrendo com a escassez de comida. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, cada membro da família enfrenta seus piores medos e seu lado mais condenável.

Devo assistir porque: Não há nada mais aterrorizante do que a religião. Ao passo em que ela traz luz e calma para aqueles que nela crê, uma das moedas de troca da entrega à adoração é a salvação da danação, o que nos leva a crer, em menor instância, que todos estamos danados, e que falhar com nossa espiritualidade significa sofrer eternamente. Sob essa ótica é que a família protagonizará o seu fim, em uma trama onde, passo a passo, cada membro da família cairá pela sua falta de conexão com deus. O peso cristão preenche a trama, seja pelo contínuo vilipendio de Thomasin (Anya Taylor-Joy), única mulher “madura” ainda virgem (apesar de não passar de uma adolescente para os padrões contemporâneos), figura mitologicamente agredida nos textos religiosos, pela raiva de  Katherine (Kate Dickie), uma mãe que não consegue perdoar sua filha pela perda de seu bebê, ódio que se soma à inveja e raiva da jovialidade “pecaminosa” de sua filha, da ausência de responsabilidade de William (Ralph Ineson) um homem que não exerce sua posição de varão da casa e a puberdade contida e incestuosa de Caleb (Harvey Scrimshaw), que luta contra os desejos carnais para com sua irmã de sangue. Toda essa situação se soma à abominação do feminino, à condenação penitente da moral cristã, à tentação de Lúcifer e os caminhos da mão-esquerda, resultando em uma densa e sufocante narrativa sobre o abandono impiedoso de deus quando seus servos não seguem estritamente o seu caminho. Para este redator, o melhor filme desse lustro.

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