A nova trilogia de “Planeta dos Macacos” abandona um pouco o “hard sci-fi” de sua versão setentista para retratar conflitos iminentes em nossa sociedade contemporânea. Como será que essa abordagem retrata nossa realidade e se comunica com outras obras do gênero?

ATENÇÃO: O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS DE UMA FRANQUIA SURGIDA NO FINAL DOS ANOS 60!

Como a maioria dos leitores e redatores do site, nasci no final dos anos 80, o que não me permitiu presenciar “ao vivo” a exibição dos longas iniciais de “O Planeta dos Macacos”. Como muitos de minha geração, a impressão que tinha da franquia era de algo rudimentar: fantasias de macacos humanoides e seres-humanos parecendo homens-das-cavernas. Considerando que pegamos o início da explosão dos filmes de super-heróis (inaugurada com Blade de Guilhermo Del Toro) e o retorno de Star Wars (nomeado “Guerra nas Estrelas” até então), a pentalogia original não parecia muito convidativa para novas audiência. Tim Burton não conseguiu revogar essa visão, já que seu remake de 2001 (com Mark Wahlberg, por que não?), ainda que mais fiel à novela francesa de onde se originou a franquia, era absolutamente desprovida de espírito.

A franquia original apresentava elementos de ficção-científica mais voltados aos fãs hardcore do gênero. Uma viagem espacial levaria um astronauta a pousar em um planeta onde os símios seriam a raça dominante do planeta. Providos de racionalidade, os símios tratavam os exemplares de nossa espécie como animais desprovidos de personalidade.

Com o decorrer da história, descobre-se logo que o planeta desconhecido trata-se de nossa Terra em uma futura realidade alternativa. Se isso não fosse suficiente, humanos com poderes psíquicos, explosões nucleares, viagens de volta no tempo e uma revolução símia com atores utilizando fantasias de macaco, seriam elementos constantes que, apesar de interessante, talvez se afastaria do que se considera atrativo na década de 2010.

Com a “nolanização” das franquias (impulsionada pelos desejos de histórias cada vez mais “sombrias e realistas”) decidiu-se que os elementos hardcore seriam afastados em prol da humanização da trama. Nada mais acertado, já que “Planeta dos Macacos: A Origem”, de 2011, apresenta uma visão muito mais rente com a nossa realidade e conflitos.

Considerado uma releitura do que teria acontecido entre “Fuga do Planeta dos Macacos e “A Conquista do Planeta dos Macacos” presenciamos a ascensão de César e como este teria sido fruto da ambição e da curiosidade humana. Desde os primeiros momentos, o que se tem neste filme é uma contínua exposição do especismo despendido pelo homo sapiens a outros seres sencientes.

Animais arrancados de seus lares são expostos a testes científicos, descartados como lixo (quando desprovidos de utilização por grandes corporações) e trancafiados em viveiros degradantes quando impossível de viver no espaço o qual pertencia. Tudo isso se torna combustível para que César, agora ciente de sua racionalidade, se coloque como adversário do tratamento nefasto dado aos seus semelhantes.

Rodman (personagem de James Franco) ora trata César como seu filho, ora como seu pet. César observa outros seres, como ele, trancados em jaula e vê a si próprio encoleirado como um cão. Ainda que provido da ciência de sua existência e racionalidade, César não recebe o tratamento destinado aos humanos… bem, porque não é humano.

Seres humanos não são conhecidos pela empatia com outros seres vivos. Vimos isso recentemente em Okja, por exemplo. Quando César desperta para sua individualidade, o primeiro passo é tomar para si a liberdade que se fez merecedor desde seu nascimento. Como disposto historicamente: “Se você suplicar por sua liberdade ao seu opressor, nunca será livre. Liberdade é algo que devemos tomar por nós mesmos”.

O longa se encerra com César garantindo sua liberdade e tomando posse de sua existência em um filme que trafega entre as discussões pela libertação animal e o reconhecimento do respeito ao diferente, sem apostar numa positividade exagerada. O importante, nesse ponto, é fixar a tônica que ressoará durante toda a novel franquia.

Momento em que César impõe sua existência perante seus agressores

No segundo longa, agora sob a batuta de Reeves (rosto e espírito da trilogia), César já reconhece sua existência e a de seus semelhantes. Estabelecidos fisicamente, o segundo longa discorre sobre o confronto de dois grupos, os rancores da opressão e a incapacidade de lidar com o diferente. “Humanizados”, os símios agora confrontam a impiedosa estupidez humana, o medo advindo do preconceito e a incapacidade de perdão do ofendido (aqui evidenciado por Koba, um macaco liberto no primeiro filme cujas cicatrizes vão muito além das marcas na pele).

Uma analogia muito bem acertada neste caso é que César teria uma posição de Professor X enquanto Koba interpreta um Magneto que nunca mais permitirá que seus semelhantes sofram nas mãos do holocausto. Gary Oldman poderia ser um Bastion, pronto para erradicar a raça de quaisquer seres diferentes de sua imagem e semelhança.

Então enquanto busca sobrevivência, César deve lidar com os extremos intentados por Koba, já incapaz de compreender ou perdoar seus agressores. E aqui que sua desagradável aparência externa ressoa com seu interior.

Koba, já tomado pelo sadismo decorrente da violência sofrida por toda a vida

E não é isso que ocorre no mundo real? Quantas e quantas pessoas, quantos e quantos movimentos e agremiações se colocam firme contra um “inimigo implacável” que certamente os irá esmagar caso a ação não parta primeiro dos ameaçados. O medo do sofrimento já impulsionou quantas pessoas, quantas nações, a adotar medidas desesperadas para redução de um risco implacável?

Então César, um líder moderado que busca conciliar a capacidade de sobrevivência com a de coexistência é pego no fogo cruzado do ódio de seus iguais com o preconceito de seus algozes. Sem ele, seu grupo perece, mas com ele, parecem incapazes de suportar o peso implacável do ódio de Koba.

Neste capítulo, a franquia caminha no embate pelo respeito, pela conquista do direito de respeito à sua existência (de pertencer à um espaço) e pelo repúdio ao extremismo repleto de ódio que nubla as boas ações e nos impulsionam a realizar atos odiosos. Mas também nos mostram que esses atos são tomados, muitas vezes, pelo medo de se machucar novamente, pela violência que recebemos e que muitas vezes atravessa nossa carne e se instala no cerne de nosso ser.

Planeta dos Macacos: O Confronto” sai do campo de uma analogia de libertação animal estabelecida na primeira parte, para o campo de uma “libertação humana”. Não se trata mais de seres vivos com diferentes graus cognitivos, mas seres em igualdade de discernimento, com estilos de vida diferentes, buscando a sobrevivência em meio a um conflito implacável do mais forte contra o mais fraco.

Esse tipo de embate já foi presenciado em diversos e recentes momentos históricos: no genocídio indígena da América Latina, nas chacinas de Ruanda, nos ataques impiedosos ao povo palestino e na invasão do Vietnam por forças americanas. A história da humanidade é repleta de histórias do esmagamento realizado por um povo dito “civilizado” frente a um povo “não-civilizado”. Hierarquiza-se polos de conflitos armados apenas com base na versão de vitoriosos e verdadeiras devastações culturais são perpetradas em nome do “medo do desconhecido”.

Matt Reeves, nesse filme, retrata esses episódios através de uma alegoria que, se não fosse a aparência concedida aos atores por meio de tecnologias de captura de atuação por meio de movimentos, seria um retrato da própria história humana e de como nos canibalizamos dia-após-dia.

Por fim, em “Planeta dos Macacos: A Guerra”, temos a conclusão derradeira dos fatos. Quando um elemento estranho de uma comunidade alcança um status indesejado de permanência, não resta outra alternativa aos dominantes que não a completa destruição por meio da força. Sobrevivendo aos eventos dos dois primeiros filmes, a população de César enfrenta um implacável grupo paramilitar que possui um único propósito: sua limpeza genética daquele espaço.

As comparações com longas de guerra, de nazismo e os paralelos com “Apocalypse Now” não poderiam ser mais pontuais. A dominação e a submissão de povos marginalizados ao tratamento degradante sempre foi a maneira que a humanidade utilizou para perpetuar sua dominação.

Isso aconteceu com os escravos africanos, com os indígenas sulamericanos e acontece ainda com os casos de trabalho escravo hoje, conduzidas por grandes corporações, para maximização de lucros e garantia de competitividade de mercado. Permite-se manobras de outsourcing em países subdesenvolvidos para que isso não interfira no IDH de países desenvolvidos. Tal como ocorre no filme, a pretensão dos povos já estabelecidos foi, muitas vezes, desenvolvida por meio de suor e sangue de comunidades dominadas em regime de escravidão ou de miséria.

No final do terceiro longa, a humanidade é derrotada por dois dos seus maiores medos: o fim em pé de igualdade com a imagem daquilo que repudia (retratado aqui pelo Coronel contraindo a doença que exclui aquilo que ele denomina humanidade) e com a obliteração mútua. No terceiro filme, César não apresenta nenhum plano para confrontar os humanos, já que não há dúvidas de que estes conduzirão os passos do seu próprio fim. A sina da humanidade nos tempos contemporâneos é justamente a destruição pelas próprias mãos, seja no risco de um confronto armado sem precedentes (como na Guerra Fria), seja por meio da deterioração do meio-ambiente e dos seres vivos que o compõe (sejam animais, sejam plantas).

Com aspectos que vão de Apocalypse Now à filmes de campos de concentração como Lista de Schindler, a conclusão da história, ao contrário do que se imaginava, é muito mais contida e intimista. A palavra “guerra” aqui tem um sentido muito mais intimista do que a esperada sequencias de explosões em filmes com essa premissa. É como se a intenção de Reeves fosse evidenciar os “traumas” da guerra, não o confronto bélico em si (até porque isso já foi mostrado em tantos outros filmes, inclusive da própria franquia, que não imagino que ele teria algo a acrescentar).

Neste longa temos um cenário onde uma decisão movida puramente por “paixão” (no sentido de explosão emocional) bota toda uma comunidade em risco. Essa situação reflete em nossas vidas e no modo como líderes em geral conduzem suas atuações. Muitas vezes uma peça fundamental de sustento de um grupo é tomado por um sentimento que o leva a uma situação inescapável, colocando todos em risco.

Então saindo daquele campo análogo ao de X-Men, “A Guerra” mostra repercussões muito mais íntimas dos atos e eventos surgidos em momentos de grave crise. Quanto mais ameaçadora a situação, mais desesperados serão os atos dos envolvidos, de modo que somos incapazes de contemplar esse cenário enquanto estivermos nele inseridos (seja em casos de comunidades, seja no plano de nossa privada mesmo).

Do reconhecimento de existência ao confronto bilateral, e do confronto bilateral à luta por sobrevivência, a franquia “O Planeta dos Macacos” abandonou seu lado lúdico calcado na ficção científica hardcore de nicho para embarcar na humanização da trama e nos conflitos que são atinentes a existência de qualquer ser vivo.
Em todos os lugares do mundo, comunidades ou indivíduos passam por esses mesmos pontos. Todos os dias há pessoas tentando ter sua existência reconhecida, ter garantido sua sobrevivência em um cenário de ameaça franca. O César de Serkins, por meio de um acertado processo de humanização, nos apresenta situações capazes de serem identificadas por qualquer pessoa no globo.

Isso ocorre, hoje, com as comunidades ribeirinhas afetadas por Belo Monte, por famílias expulsas de favelas em reintegrações de posse, por palestinos não aceitos como imigrantes e esmagados em sua terra natal por forças americanas e israelenses, pelos chineses e coreanos quando forças japonesas invadiram o seu território…

Essa foi e ainda é a história da humanidade. E por isso “O Planeta dos Macacos” merece ser tão reverenciado: por conseguir pegar um blockbuster repleto da carga hollywoodiana de superprodução e trazer humanidade no ponto exato a fazer pensar aqueles que assim desejam, ou fazer emocionar aqueles que só visam se divertir com uma boa história, cinematograficamente bem executada.

E convenhamos, capacidade para agradar gregos e troianos é algo a ser celebrado no cinema contemporâneo, e considerando que a franquia terá uma pausa nos próximos anos, ficamos felizes que ela tenha se encerrado com a qualidade que esperávamos.

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