“Quando eu era mais nova, eu não percebia que os papéis femininos eram tão mal escritos, mas, seguindo adiante nessa carreira, eu vi que há realmente muitas personagens ruins, e não é incomum notar que muitas dessas personagens sejam só ‘namoradinhas’. Eu espero nunca ter que interpretar um papel que só está lá para beneficiar um protagonista homem.” (Maisie Williams, conhecida pelo papel de Arya Stark).

Que Hollywood está longe de ser a terra dos sonhos para o sexo feminino, todos sabemos. Por anos a fio as mulheres foram retratadas no cinema como meras personagens secundárias em filmes protagonizados por homens (sendo o interesse romântico do personagem principal ou a donzela em perigo) ou protagonizando comédias românticas onde a mulher só se realiza, verdadeiramente, quando está ao lado de um homem por quem é apaixonada – apenas quando encontra o grande amor de sua vida, ela pode ser, de fato “feliz para sempre”.

Algumas coisas mudaram, outras nem tanto… De acordo com o Center for the Study of Women in Television and Film, da Universidade de San Diego, na Califórnia, em sua 19ª edição de estudo, publicada em janeiro deste ano, o protagonismo feminino ainda é maior em filmes de comédia romântica (coincidência?) com 28% num total de 100, seguido pelos gêneros: drama (24%), terror (17%), animações (14%), ficção científica (14%) e ação (3%).

Ainda sim, há o que comemorar! No mesmo estudo, concluiu-se que o ano de 2016 quebrou o recorde e foi o que mais teve mulheres como protagonistas entres os filmes mais lucrativos de Hollywood. Entre as 100 produções de maior sucesso, 29 foram lideradas por atrizes (em 2015, elas eram 22%). Foram ressaltados títulos como Rogue One – Uma História Star Wars, A Chegada e Caça-Fantasmas, por exemplo. Em relação aos outros filmes, em que elas ocupam papéis de destaque, as atrizes são 37% do elenco (3% a mais do que em 2015).

Apesar de alguns dos números quebrarem recordes e serem positivos para as mulheres, eles ainda estão longe de refletirem uma realidade justa… Vale ressaltar o fato que a porcentagem de personagens femininos com falas caiu de 33% para 32%.

Existem dois testes que medem a representatividade feminina nos filmes. O primeiro deles é o Teste de Bechdel. Criado em 1985, possui três critérios: primeiro, o filme precisa ter no mínimo duas mulheres, com nomes; segundo, que elas conversem entre si; e, por último, a conversa deve ser sobre algo que não seja um homem. O teste de Bechdel não contempla algumas personagens fortes do cinema. Então, surgiu o Teste de Mako Mori, baseado na personagem de mesmo nome do filme Círculo de Fogo, que possui os seguintes princípios: ter ao menos uma personagem feminina; que essa personagem tenha seu próprio arco narrativo; e que esse arco não seja apenas para dar suporte a uma história masculina. Ambos os testes não servem para avaliar a qualidade de um filme e um teste não exclui o outro. Infelizmente, a maioria dos filmes não passa em nenhum dos dois testes, provando que o cinema ainda tem muito o que crescer.

Mas, sejamos justos, essa realidade “engessada” e padronizada vem mudando, a começar pelas princesas. Filmes como Frozen, A Princesa e o Sapo e Valente trazem protagonistas fortes e que passam em ambos os testes. O que é um avanço já que na maioria dos filmes da Disney as princesas tem menos falas que os personagens masculinos.

 As sagas juvenis também evoluíram. Depois de Crepúsculo trazer uma protagonista que só ficou forte e invencível depois de casar e ser mãe, Jogos Vorazes com Katniss Everdeen e Divergente com Tris Prior, foram um alívio, seguindo temáticas de adolescentes poderosas lutando contra o sistema em uma sociedade distópica (deixamos aqui uma menção honrosa à saudosa Hermione Grangerdas bruxas da idade dela, a mais inteligente – que apesar de não ser a protagonista foi uma personagem importante para a saga Harry Potter e serviu de inspiração para milhares de meninas no mundo todo).

Partindo para o público adulto não dá para não falar de três fenômenos recentes: Mad Max – Estrada da Fúria (que não tem só uma mulher poderosa, mas sim várias delas lideradas pela maravilhosa Imperatriz Furiosa) é girl power na veia. Star Wars, que já consagrou Leia e Carrie Fisher não só como ícones Nerd, mas como símbolos do feminismo (leia aqui nosso especial sobre Carrie e o feminismo), mantém a tradição em O Despertar da Força e Rogue One, onde as protagonistas podem até estar em perigo, mas que de donzelas esperando seu salvador, não tem nada… Por fim, a DC Comics com seu Mulher Maravilha, lançado este ano, foi um hino à luta feminista! Saindo na frente da Marvel que ainda não colocou nenhuma das suas mulheres pra protagonizar um filme (para não ser injusta, na TV temos duas grandes heroínas dos estúdios Marvel: Jessica Jones e Agent Carter).

A indústria de cinema está mudando? Bom, talvez, ainda a passos de formiga, o que não deixa de ser algo relevante a ser comemorado. Se isso é o suficiente? Lógico que não! Representatividade é uma tecla que não deve deixar de ser batida e as meninas têm que saber que existem outras opções que além dos vestidos de princesa.

E sim, meus caros Nerds, se nós estamos ascendendo nesse sentido devemos à Leia, Ripley, Wandinha, Buffy, Holly Golightly e muitas outras que surgiram nas décadas passadas e que nos inspiraram (e ainda inspiram), a lutar por um mundo melhor, com igualdade entre os gêneros.

Cooperação: Lívia Cavalcanti

Comments

comments