Após 3 brilhantes temporadas, nos despedimos da melhor série que ninguém assiste.

Sinopse: “Um drama enigmático em que 2% da população desaparece de forma repentina e sem qualquer explicação, e o mundo inteiro tenta lidar com esta situação improvável. Terá sido o arrebatamento bíblico, levando os verdadeiros cristãos para junto de Deus no fim dos tempos? Ou um evento sobrenatural simplesmente inexplicável? Três anos depois desse evento traumático, acompanhamos a vida daqueles que foram deixados para trás. A história gira em torno de Kevin Garvey, pai de família e chefe de polícia de um pequeno subúrbio nova-iorquino, que se esforça para recuperar a sensação de normalidade diante de uma situação que parece impossível.”

the leftoversTão excitante quanto a proposta inicial do seriado, nos evidenciado há 4 anos quando, em 2014, Damon Lindelof e Tom Perrotta pariram essa obra de arte, hoje sinto aquele mesmo vazio existencial ostentado pelos personagens de The Leftovers. Como se, assim como eles, visse que algo de necessário desaparecesse de mim e, não entendendo a razão, me culpasse e lamentasse incessantemente todo o ocorrido. The Leftovers acabou, amigos, não há guancho, tampouco motivo de voltar a existir. Assim como tudo na vida, encontramos a finitude, o término, o adeus. Aceitar? Não é fácil. Entender, visto que existem séries pobres que a cada ano são renovadas para outras temporadas, menos ainda. Nos resta viver com o fato, e, novamente como aqueles tão humanos seres dessa obra prima, seguir em frente. E agora prometo que tentarei eliminar qualquer paralelo das tantas ocorrências que acompanhamos esses anos com meu estado atual de melancolia pós-seriado.

the leftovers 6Antes de mais nada, e não vejo a menor necessidade de analisar cada ponto da obra em si, basta entendermos que The Leftovers (uma breve conferida no dicionário inglês cá de casa me traz “as sobras”), não se trata dos que foram, mas, sim, dos que ficaram. É óbvio que criei expectativas em descobrir o que realmente aconteceu com as pessoas que compunham 2% da população mundial, fundei teorias baseadas nas trocentas simbologias que a série trazia a cada novo episódio e embaralhava toda ou qualquer dica jogada de maneira avulsa. Mas nada, nada do que podia prever, se concretizava. The Leftovers sempre foi imprevisível, jamais se entregava a inteligíveis soluções. Me degustava na ânsia de interpretar cada, por mais irrelevante que pudesse aparentar ser, acontecimento. Com o passar dos episódios, e, necessariamente, com o envolvimento criado com os personagens, comecei a me desinteressar com a ideia de fundamentar o que aconteceu ou pra onde foram os que partiram. Nada disso mais tinha importância, queria descobrir as dificuldades daqueles em tela, seus tão profundos dramas e pesares. A cada novo capítulo uma nova descoberta, e, quase que instantaneamente, uma afinidade era estabelecida.

the leftovers 7Essa criação de laços é quase que involuntária quando assistirmos um seriado. Estamos ali, na maioria das vezes, acompanhando duas, três, cinco temporadas. É difícil não se identificar com alguém, mas sinto que com The Leftovers o apego é maior, visto que, diante do drama que eles vivem, nos colocamos à parte da situação. Acredito que todo mundo, em qualquer iminência, já se envolveu com a ideia de uma partida repentina, seja a narrada na Bíblia ou até mesmo alguma desconhecida. Tudo que envolve o sobrenatural nos causa interesse e, acreditando ou não, o conceito é logo criado em nossa mente.

the leftovers 4The Leftovers trabalha muitíssimo bem todo seu potencial enigmático. Por episódio, em particular, é feita a quebra de expectativas e há uma vasta rodeada por distintos gêneros. Ao analisarmos o cumprimento dessa ideia, vislumbramos coerência. É um produto que não almeja entregar o inegável, absolutamente tudo pode acontecer. É realmente genial esse mar de posicionamentos e perspectivas tomadas pela obra e, conversando com outros (pouquíssimos) que acompanham/acompanharam a série, tenho a comprovação da inutilidade de minha interpretação quando avaliada como certeza absoluta. Aqui não existe isso. Tudo é válido.

the leftovers 5Mesmo com todos esses prós (há muito mais), seria equivocado afirmar que é uma série para qualquer um. Não digo em questão de conhecimento ou capacidade intelectual, por Deus, boei em alguns vários momentos. É pela proposta mesmo, The Leftovers é pretensiosa, não no sentido de se supervalorizar, mas na aspiração pelo novo, pelo diferente e peculiar. Toda essa veia pode vir a prejudicar a relação com determinado espectador. Não tive dificuldade em momento algum, mas bem percebo que é um ponto a se levar em consideração no final.

the leftovers 8The Leftovers ainda concede atuações marcantes de todo seu elenco. Justin Theroux entrega um personagem que cresce a cada temporada. Acompanhar seu desenvolvimento enquanto pai/marido/profissional/homem, é marcante. O mesmo digo de Carrie Coon que, ainda de forma mais surpreendente, deixa de ser coadjuvante e assume o protagonismo maior. Juro que se for falar do elenco completo irei estender em demasia esse parágrafo, mas guardo um espaço especial para Christopher Eccleston e seu Matt, pra mim o mais humano de todos os personagens. Encabeça os melhores monólogos e os episódios mais insanos. Se houvesse justiça no mundo, venceria todos os prêmios junto ao restante do cast.

the leftovers 1Existe muita filosofia aqui. The Leftovers necessita de um maior público. Aliás, engano meu, é o público que precisa de The Leftovers e se esbaldar do máximo que a TV têm para oferecer. Busquei fugir, espero que tenham entendimento, das propostas que uso em meus textos e informar o mínimo possível sobre o seriado. Disse o que é necessário para se jogar de cabeça e buscar fazer com que todos que estão aqui, a ler esse texto, acima de simplesmente conferir o material escrito, possam, realmente, assistir a série.

Difícil até formular algo após o series finale de ontem. Aos que já tudo viram, preguemos aos outros, levemos The Leftovers a todo canto mundo. É algo que necessita ser conhecido.

Ah, antes de finalizar, só digo algo: Max Richter, que música!

NOTA FINAL:

5

FICHA TÉCNICA:

Título Original: The Leftovers
Criador: Damon Lindelof e Tom Perrotta
Gênero: Drama 
Número de Temporadas: 3
Classificação etária: 16 anos
Elenco: Justin Theroux, Carrie Coon, Christopher Eccleston, Amy Brenneman, Kevin Carroll, Scott Glenn, Chris Zylka, Jovan Adepo, Margaret Qualley
Período: 2014 – 2017

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