Física quântica, psicologia, buracos de minhoca, relações interpessoais em uma história não tão complexa quanto parece, mas imersiva e intrigante em seu desenrolar.

Sinopse:
“Quem vê Donnie Darko logo imagina se tratar de um adolescente desajustado. Na verdade, Donnie está à beira da loucura, devido a visões constantes de um coelho monstruoso, que tenta mantê-lo sob a sua sinistra influência. Incitado pela aparição, Donnie tem atuação antissocial, enquanto se submete à terapia, sobrevive às extravagâncias da vida e do romance no colégio e, por acaso, escapa a uma estranha morte devido à queda de um avião. Donnie luta contra os seus demônios, literal e figurativamente, numa intriga de histórias entrelaçadas que jogam com as viagens no tempo, gurus fundamentalistas, predestinação e os desígnios do universo.”

Comemorou-se nas últimas semanas o décimo quinto aniversário de lançamento de Donnie Darko, um dos longas mais cultuados no meio cinéfilo em muitas décadas. Prometo (talvez não o consiga) que não buscarei interpretar ou explicar o filme de uma maneira a elucidar a opinião de meus leitores (quanta imodéstia, Rafael), mas, propriamente, a frisar meu sentimento final acerca dessa obra tão rica em simbologias e idéias.

Antes de mais nada, seria interessante falar que jamais havia assistido o filme. Vi há pouco por constantes recomendações – de muitos anos, aliás – e confesso que foi melhor que eu imaginava. E menos complexo também. O que é algo suficientemente bom, pois esperava algo supervalorizado e enaltecido exageradamente por um público que, por não compreender determinado conceito, valorizaria a obra além do que ela realmente é.

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Donnie Darko é um filme interessantíssimo, porém (para afirmar o que disse no primeiro parágrafo), sujeito a várias interpretações. Acredito que seria um tanto egoísta de minha parte trazer a minha concepção, tratando-a como a verdade absoluta da questão. Como de fato não é, vejo com bons ares me limitar ao sentimento conclusivo após à apreciação da obra. Que em linhas gerais, aborda viagens no tempo, críticas ao sistema escolar e conflitos (inter) pessoais.

Tendo isso em mente, conhecemos Donnie Darko (Jake Gyllenhaal), um jovem estudante do Ensino Médio que possui uma vida um pouco diferente do habitual. O que tem de habitual, contudo, é a relação com sua família. Os conflitos tradicionais, as discussões irônicas com a irmã mais velha e por aí vai. O que o faz diferente dos demais são suas intempéries psicológicas. Donnie é esquizofrênico, deveras introspectivo e sonâmbulo.

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Em um de seus distúrbios comportamentais de sonambulismo, Donnie sai de casa e dialoga com um coelho gigante. Frank (James Duval), o seu nome. A estranha figura profetiza o Apocalipse, algo como o término do mundo. Sem muitas explicações, e, ocorrendo quase que simultaneamente ao aviso do coelho, uma turbina de um avião cai em sua casa. Sendo mais claro, bem no meio do quarto de Donnie, onde, indiscutivelmente, se lá estivesse deitado, certamente morreria.

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Seria esse novo amigo de nosso protagonista um salvador? Alguém que tirara Donnie de seu quarto no meio da madrugada para salvá-lo? O filme vai analisando essas questões aos poucos. Trazendo, no meio disso tudo, o viver retraído e bastante singular de Donnie no âmbito escolar. Um jovem inteligentíssimo, que guarda consigo um mundo inteiro de idéias relevantes. Quando é perguntado sobre determinada questão na escola, logo rebaixa seus professores por tamanho senso crítico analisador.

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Uma pessoa diferente, não acham? Ainda explorando seu viver, vislumbramos um rapaz que, ao contato com Frank, acaba sendo subordinado a uma obediência hierárquica. Frank é opressor e age com o intuito de relevar o lado mais subversivo de Donnie, fazendo-o selvagem e destruidor. Donnie, por meio das ordens, modifica seu comportamento deteriorando entidades autocráticas. Basicamente uma revolução em seu viver. Ele começa uma relação com as quebras de paradigmas.

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Por mais que essa modificação chame atenção no comportamento do protagonista, o que mais transforma (e até ajuda) sua concepção é a relação que constrói com Grecthen (Jena Malone), uma garota que acabara de se mudar e se encontrava, assim como Donnie, num impasse existencial. É bastante curiosa a construção do relacionamento entre eles. Mesmo que a criação do envolvimento do casal seja marcada por certos estereótipos, é estimulante acompanhá-los e nunca nos parece falsa toda aquela ligação assim concebida.

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E o filme segue com suas absurdas simbologias, deixando-nos com aquela pulga atrás da orelha sobre a predição do futuro dita pelo coelho gigante. E sem soltar o desenvolvimento da investigação de Donnie e toda mítica filosófica presente na trama, é quase que necessário uma associação com a teoria das idéias, buracos de minhoca, física quântica e mesmo o exacerbado tradicionalismo religioso. São estudos que o filme traz que podem comprometer diretamente o envolvimento do espectador com a obra. Não que seja uma condição para assistir Donnie Darko, mas penso (e isso pra mim facilitou) que uma ideia premeditada sobre esses temas ajude consideravelmente no resultado final.

Bem, é realmente intrigante a conjectura do diretor Richad Kelly no desenvolvimento de seu filme. De início nos abstemos a estrutura do longa, mas, ao fim, é nítida a desconstrução do realizador no que se refere ao desenrolar das relações, à mediocridade das instituições – criticou-se o sistema institucional escolar, o desinteresse da psiquiatria, também o fanatismo e suas formas – sempre com o intuito de ter o que dizer,  formulando conceitos inteligentes (e sábios na constatação da subjetividade).

Em suma, por mais que tenhamos uma espécie de redenção de Donnie no plot twist, gosto de crer também que o Fim do Mundo dito por Frank seja uma metáfora para o autodescobrimento do protagonista em sua relação com o as tantas fases mundanas. Entendi também uma compreensão sobrenatural para que ele entendesse o real significado de sua existência.

Causticante essa necessidade de ter de pensar, não é mesmo?

NOTA FINAL:

4

FICHA TÉCNICA

Direção: Richard Kelly
Roteiro:
Richard Kelly
Título Original: Donnie Darko
Gênero: Drama/Ficção
Duração: 1h 53min
Ano de lançamento: 2001
Classificação etária: 14 anos
Lançamento: 24 de Setembro de 2003 (Brasil)

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