Há muito tempo que escrevo as minhas relembranças. É um hábito que adquiri ainda criança. Eu tinha fascínio por relatar tudo que me ocorria ou estava ao meu redor. E desde então escrevo fatos e pormenores minuciosamente detalhados num caderno. Seria uma espécie de diário; entretanto esse termo diário fica um pouco pejorativo em tratando-se da infinidade de coisas que escrevo que não seriam muito bem de cunho sentimentalóide. E esse fato de ser diário coloca esse tom, então não darei alcunha ao que escrevo. Somente escreverei para numa posterioridade talvez publicá-lo.
Eu queria que este novo caderno que inicio hoje tivesse um prefácio. Sei perfeitamente que sou metódico, mas nada seria tão bom se não tivesse, é claro, uma introdução prévia.
Hoje é um dia muito importante. Hoje dei uns passos. E sobre isso e outro pormenor eu ainda não mencionei. Tenho que admitir que estava com vergonha. Eu ainda sinto um pouco de pesar ao rememorar isso. Ainda é dolorido. Mas infelizmente não foi mais um fim de histórias de contos de fadas. E isso eu realmente tive durante a minha vida inteira.
Muitos impediram que eu escrevesse. Muitos me subjugaram. Muito, quase tudo fizeram comigo. E em vários devaneios ainda tenho a sensação de estar caminhando de mãos dadas a ela.
Enfim isso não é um fato a ser relembrado. Ainda me deixaram um único caderno imundo para escrever. Sinto muitas dores no corpo. A minha voz soa um tanto embargada. Há muito, não vejo o sol e não falo a ninguém. Sabem, quem quer que seja que esteja a ler esse meu relato nesse momento, eu preciso contar, desabafar. Nunca tive receio de que lessem o que eu escrevia. Mas em certos momentos podemos ser atraiçoados por nossas próprias palavras.
Isso aconteceu comigo. Essa odiosa situação em que me encontro não irá se perdurar por muito. Acho que estarei a navegar, sendo conduzido pelo barqueiro muito em breve. Em bem menos tempo que gostaria. Querem uma confissão. Isso é perigoso demais. Nem imaginam que poderiam arrancar a minha pele. Eu jamais diria. Ela está a salvo. Esse caderno tem um propósito. Eu sei. Acham que eu seria tolo o bastante para me render ao devaneio da fome, da dor e escrever algo estúpido aqui. Consigo até esboçar um sorriso de escárnio nesse momento. Eu, logo eu. Isso aqui é uma farsa…

J.

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