Filme sobre a construção de uma identidade própria tendo em vista memórias e passados acontecimentos. Kleber Mendonça Filho toca, mais uma vez, numa importante tecla. Desde já, o melhor filme nacional de 2016.

Sinopse:
“Clara, 65 anos de idade, é uma escritora e crítica de música aposentada. Ela é viúva, mãe de três filhos adultos, e moradora de um apartamento repleto de livros e discos no Bairro de Boa Viagem, num edifício chamado Aquarius. Interessada em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do prédio, menos o dela. Por mais que tenha deixado bem claro que não pretende vendê-lo, Clara sofre todo tipo de assédio e ameaça para que mude de ideia.”

O arrependimento é uma constante na vida de cada um de nós. Irremediavelmente nos encontramos em situações insanáveis, sem oportunidades maiores de voltar atrás. Hoje me encontro numa situação desconfortável: Por que diabos não assisti Aquarius em seu lançamento no cinema? Acredito que tudo que ocorre no mundo tenha uma razão (seja ela qual for). Também não sou nenhum entusiasta da semiótica, mas sinto que existe um significado no fenômeno de não ter acompanhado essa grande obra no cinema.

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Kleber Mendonça Filho, roteirista e diretor, chega com mais renome e controle técnico e artístico em seu segundo longa metragem. E para aqueles que assistiram ao seu longa de estréia, O Som ao Redor, enfatizo que há muito de seu primeiro trabalho aqui em Aquarius. Se nele acompanhávamos o viver – ora pacato, ora impulsivo – dos habitantes de uma rua de classe-média na zona sul de Recife, agora nos limitamos a uma personagem em seu cotidiano também em Recife. Temos quase que uma crônica brasileira. Gosto de pensar que se trata de um estudo social que bem poderia se passar em qualquer metrópole de nosso país.

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E ao falar de estudo social, é sábio salientar que o filme busca retratar uma realidade. Bem, claro, não comum à maioria de nossa população, mas insinuante e convicta na amostragem da elite. Uma elite arrogante e demagoga na necessidade de manipular os menos favorecidos. Na insistência em mostrar-se bonzinho somente para conduzir o povo para junto de seus ideais. E sob essa prática, Kleber consegue realçar a importância daquilo que é simples. Evidencia o valor sentimento que está, precisamente, acima do material.

Neste tão peculiar contexto, conhecemos Clara (Sônia Braga), uma jornalista de 65 anos, moradora de um apartamento, num edifício chamado Aquarius. Ela crescera e vivera ali grande parte de sua vida. Sempre vívida e convicta, Clara, bastante segura de si, decidira – em toda e qualquer hipótese – não vender seu apartamento, mesmo sofrendo assédio compulsivo dos construtores, antigos moradores (só restara o espaço de Clara) e de sua própria filha.

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Importante entender que o filme não foge desse esquema que especifiquei. Lógico que nossa protagonista realiza suas andanças, seus passeios matinais, suas saídas noturnas, mas foquemos, exclusivamente, na relação que ela mantém com seu espaço. Sempre belo e estimulante constatar sua conexão com aquele ambiente. Todo envolvimento com aquele local que respira os passados tempos. Temos uma construção de identidade a partir do viver e das memórias da protagonista.

Imaginei, após minha apreciação da obra, parte de tudo que já vivi na minha casa. Sendo mais preciso, nesse cômodo onde estou aqui, agora, escrevendo esse texto. As discussões com meus irmãos, nossas reconciliações, a celebração de aniversários, as brincadeiras que só as crianças sabem curtir. Enfim, é bonito, né, todo esse elo que temos, quase que involuntariamente, com nosso âmbito. Essa conexão que nos faz tão bem. Ou você, leitor, se sente mais à vontade em outro espaço sem ser a sua casa? Difícil, certo? Esse é o sentimento de Clara.

Uma mulher forte que guarda consigo marcas passadas, uma até literal. Que ostenta certa solidão pelo distanciamento de seus familiares. Uma mulher que é taxada por tudo isso, sendo ainda chamada de egoísta pelo simples fato de não querer vender seu apartamento. Vivera ali seus melhores anos. Criara seus filhos. Amara seu marido. Ouvira horas e mais horas seus discos prediletos. Qual o problema nisso? Por que ela, após viver toda uma vida, é a errada da situação?

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Sônia Braga confere uma personagem absurdamente complexa e rica em detalhes. Quão assombroso é acompanhar seus movimentos faciais após determina discussão. Sua respiração ofegante em detrimento de certa decepção. Seu olhar reiterando uma fala ou um ato. É realmente impressionante vislumbrar tudo o que ela faz aqui. Brilhante!

Kleber Mendonça Filho realmente alcança mais um nível de excelência com seu cinema. Talvez haja simbologias que não peguei (certamente há), talvez as referências sejam mais amplas. Vejo aqui um inerente contraste entre aquilo que é velho e clássico e o novo e moderno. É engraçado esse contexto antônimo que o longa se propõe a fazer.

Ainda não encontrei a razão pela qual não pude reverenciar Aquarius no cinema. Temo que deixarei para lá (ou me contentar com o fato do money estar precário), mas ainda sinto aquele tão particular arrependimento. Ruim ter deixado de ver essa obra riquíssima numa tela grande.

Enfim, é sempre gratificante ver nosso cinema em sua maior qualidade. E ter a constatação de que não devemos nada – miremos o nada – para o resto do mundo.

NOTA FINAL

5

FICHA TÉCNICA

Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro:
Kleber Mendonça Filho
Título Original: Aquarius
Gênero: Drama
Duração: 2h 25min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 01 de Setembro de 2016

 

 

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