“Poder ao povo. Abaixo o sistema!”

Sinopse:
“Ben é o pai de seis crianças, que decide fugir da civilização e criar os filhos nas florestas selvagens do Pacífico Norte. Ele passa os seus dias dando lições às crianças, ensinando-os a praticar esportes e a combater inimigos. Um dia, no entanto, Ben é forçado a deixar o local e retornar à vida na cidade. Começa o aprendizado do pai, que deve se acostumar à vida moderna.”

Lembro que quando foram lançadas imagens sobre o novo projeto de Matt Ross, várias pessoas, onde também me incluo, disseram se tratar de uma estética cinematográfica semelhante às dos trabalhos do realizador americano Wes Anderson. Bem, acredito que esse achismo ficou somente nas primeiras imagens. Baseando naquilo que acompanhei em quase duas horas de projeção, pouco notei de equivalente com os trabalhos do Wes.

Capitão Fantástico tem como ponto de partida uma delicada sequência de caça onde, de início, acompanhamos um solitário cervo se alimentando numa região florestal. Segundos se passam e esse animal é capturado e degolado por determinado integrante da família do “Capitão” que dá nome ao filme. Instantes depois somos apresentados a Ben (Viggo Mortensen) e suas crias, seis filhos que não possuem qualquer laço com a cultura popular. Tal cena inicial já denota um pouco sobre a formação daquela não tão típica família estadunidense.

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Em pouco mais de 15 minutos, através de ocorrências, rituais e manifestações, conhecemos todos os membros daquela casa. Acontece quase que uma transportação àquele âmbito e, verdadeiramente, somos tocados pela esfera selvagem, natural e espontânea que rege aqueles seres a viverem livres das concupiscências mundanas. Cria-se, obviamente, uma crítica ao capitalismo e as suas várias formas. Aliás, o filme reitera tal análise ao sistema econômico em diversas ocasiões. E isso, em tempos que vivemos, é de uma eficiência tamanha.

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Bem, determinado em não me alongar propriamente no enredo do longa, após receber a comunicação do falecimento de sua esposa, Ben relata a tragédia para seus filhos (ela havia se suicidado). Disposto, de início, em não comparecer ao funeral de sua amada, também unido à negação e condenação por sua pessoa pelo pai da falecida, o patriarca é influenciado por suas crianças a partir para o Novo México para, assim, se despedirem dignamente.

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Logo se ergue um road movie. Não digo que necessariamente original, é como tantos que já vimos em décadas de cinema. Marcado por encontros e desencontros, por descobertas e aprendizados, porém, aqui necessariamente, por um imutável contraste de culturas. E isso, por si só, já é fascinante. Imaginem seis crianças entrando pela primeira vez num Fast-food? Ou em um supermercado? Idealizem seres que aprenderam a caçar, a se exercitar e a viver de um modo natural, confrontando com aqueles que se contentam com o sedentarismo (me identifiquei aqui), com o jeito mais “fast” de realizar as coisas ou mesmo de mentir para seus filhos para que esses, ainda jovens, não conheçam a verdade sobre um mundo louco e cruel.

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Dito tudo isso, me encontro na obrigação de elogiar Viggo Mortensen e sua capacidade de flutuar por personagens tão complexos e diferentes uns dos outros. Quem se lembra daquele ser imponente, majestoso e guerreiro da trilogia O Senhor dos Anéis, aquela violenta e ousada interpretação em Senhores do Crime de David Cronenberg, vendo-o agora, sério e relativamente contido pai de família. Um entusiasta das teorias marxistas (alguns debates presentes no filme são quase que geniais). É um cara que vem escolhendo bem seus papeis. Ele está brilhante aqui. Há uma sequência já mais para o final do filme onde, se houver justiça no mundo, ele certamente alavancará diversas indicações nas premiações do próximo ano.

Capitão Fantástico é uma celebração à vida. Mas não a vida mal vivida ou rotulada de preceitos originários de concepções vindas de sistemas opressores e preconceituosos. É uma celebração as peculiaridades daqueles que ousam mais, criticam mais, proclamam mais, amam mais. O filme é um manifesto ao conhecimento (por que não?!), as incontáveis formas de aprendizagem e respeito àquilo que se pouco valoriza. Sim, valor às relações familiares, as ideologias igualitárias, valor à certeza alheia.  É bastante especial mesmo.

E que bom que não é tão similar assim aos filmes do Wes. Nada contra o gênio da simetria, por Deus, mas Matt Ross mostrou certa particularidade. Soube ser cômico e dramático. Ademais, soube contar uma linda fábula.

NOTA FINAL

:5

FICHA TÉCNICA

Direção: Matt Ross
Roteiro:
Matt Ross
Título Original: Captain Fantastic
Gênero: Comédia Dramática
Duração: 1h 58min
Ano de lançamento: 2016
Classificação etária: Não definido
Lançamento: 27 de Outubro de 2016 (Brasil)

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