“Cada tijolo é um problema, não se aprisione. Derrube o muro!”

Sinopse:
“A história do “The Wall” é contada apenas com a música do Pink Floyd, imagens e efeitos naturais. Não há diálogos convencionais para o progresso da narrativa. Nossa história é sobre Pink, um astro do rock and roll que se senta trancado em um quarto de hotel, em algum lugar em Los Angeles. Muitos shows, muitas drogas, muito aplauso: um caso perdido. Na TV, um filme de guerra demasiado familiar preenche a tela. Uma mistura de tempo e lugar, realidade e pesadelo quando entramos nas memórias dolorosas de Pink, cada uma um “tijolo” no muro que ele tem gradualmente construído em torno de seus sentimentos.”

A boa surpresa é sempre bem vinda. Quando inicio determinado filme, inegavelmente, espero criar uma relação subjetiva com o projeto. Busco, por meio da empatia, ter uma conexão com os personagens e envolver-me fortemente com eles até o fim de projeção. Obviamente nem sempre consigo saciar meus desejos. Diversos realizadores se perdem por algo a mais ou algo a menos. Realizar um longa metragem certamente tem lá suas dificuldades…

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Dito isso, e com clareza, afirmo que adaptar para as telonas um dos álbuns conceituais mais relevantes do rock progressivo, quiçá da música, é de uma complexidade enorme. “The Wall” dispensa comentários, é um trabalho gigante, de mentes geniais. Escutar suas 26 faixas nos leva a inacreditáveis reflexões. São letras que produzem efeitos profundos sobre manifestações de nossa consciência. É um trabalho singular, para guardar, verdadeiramente, no coração.

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É uma obra, numa concepção capaz de compreender toda nuance presente na fita, que instiga o subconsciente de um homem. Toda sua perspectiva baseada em padrões impostos pela sociedade, seus conflitos internos frutos de um passado banhado de inconsistências, e, principalmente, por seus demônios (esses existentes desde os primórdios de sua vida). Tal estudo de sua persona se desdobrará até o término da fita, e, por mais que sintamos certa incapacidade de compreender tudo que é mostrado em tela, é muito recompensador acompanhar sua vida (e seus pensamentos) sob a tutela de versos tão críticos e intimistas.

Li um pouco sobre o que levou Roger Waters e o restante do grupo ao processo de criação de “The Wall” e, contundentemente, observei que tudo que fora criado existira para mostrar toda uma transformação que impossibilitara Waters de se associar de forma digna com seu público. Percebera que a ligação com os espectadores não era a mesma comparada ao início de sua formação enquanto músico. Entendera que, acima do intuito de somente ganhar com seus shows, ele detinha, subjetivamente (e, porque não, objetivamente), o sentimento de mostrar algo. De mostrar algo verdadeiro. De servir como instrumento para as pessoas que o admiravam.

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Sabendo das convicções que levaram o grupo à criação do álbum, e unido ao estado de depressão e desolação de nosso protagonista (interpretado por Bob Geldof), tratando-se agora do filme, de uma forma bastante lúcida, entendemos o estímulo à reflexão de passados modelos, no enfrentamento de conceitos estabelecidos na criação de padrões de vida que, também revelador, age na desvirilização da criatividade individual em conformidade de um bem comum. Ainda há diversos aspectos que tratam da massificação humana (sim, massificação), que faz com que o homem se torne um ser passivo, acomodado, com medo da própria liberdade, sem entender a real necessidade de enxergar o mundo de maneira mais ampla.

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Pink Floyd – The Wall sabe ser inventivo em sua estrutura estética e narrativa. Consegue conciliar o verídico (trazendo tonalidades quase monocromáticas, em rigor, na maioria das vezes, tons acinzentados e escuros), com o imaginário (cores calorosas, pigmentações aos montes, servindo diretamente nos processos de metamorfose das animações que enchem a tela por tamanha criatividade). Já no ponto de vista narrativo o filme foge do convencional e opta por contar seu relato sem seguir estruturas claras, temos uma trama não-linear – o que nos traz certo incômodo no começo – mas, por tamanha engenhosidade no desenrolar, o desconforto inicial passa e aceitamos toda sua proposta.

É um filme extremamente eficaz naquilo que se compromete a ser. Um prato cheio aos fãs que buscam uma experiência ainda maior com o conceito artístico parido pelo grupo britânico e, o que realmente me surpreendeu (não tanto após a constatação do diretor da obra – Alan Parker, apesar de possuir uma filmografia não tão extensa, tem realizações de altíssima qualidade), por atestar se tratar de um filme riquíssimo em detalhes: toda elaboração cinematográfica, o teor técnico e a crítica fundamentada aos sistemas que englobam nossa sociedade. É um trabalho marcante!

Por mais que a obra tenha muito o que dizer (e diz), o primordial aqui é que nós, espectadores, entendamos que não se trata de uma cinebiografia ou uma “mera” obra de arte conceitual. Trata-se de uma obra que nos leva a enxergar as coisas de um modo diferente. Que nos faz repensar os padrões estereotipados pelo coletivismo. Que possui, como maior objetivo, nos fazer rever os muros que devemos derrubar para que se gerem novos interesses sociais. Explora tantos temas: isolamento, amor, dor, solidão, desequilíbrio emocional, abandono, endeusamento artístico, incompreensão, fascismo. É sobre a necessidade de questionar tudo e todos. E, convenhamos, quão bom ser tocado por uma obra desse potencial, não é mesmo?!

NOTA FINAL:

5

FICHA TÉCNICA

Direção: Alan Parker
Roteiro:
Roger Waters
Título Original: Pink Floyd – The Wall
Gênero: Drama Musical
Duração: 1h 35min
Ano de lançamento: 1982
Classificação etária: 16 anos
Lançamento: 14 de julho de 1982 (Brasil)

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